Festival do Rio 2014 Dia #04

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Videocast | 4 comentários

Abraço ao aluno Thiago, que veio me contar, depois da sessão de Boyhood, que iniciará um curso de Cinema no próximo semestre (espero poder comentar seus trabalhos futuros).

E vamos aos filmes:

13) Boyhood – Da Infância à Juventude (Boyhood, EUA, 2014). Dirigido e roteirizado por Richard Linklater. Com: Ellar Coltrane, Patricia Arquette, Ethan Hawke, Lorelei Linklater, Marco Perella, Jamie Howard, Andrew Villarreal, Barbara Chisholm, Cassidy Johnson, Landon Collier, Zoe Graham, Charlie Sexton.

Rodado ao longo de quase 12 anos, Boyhood – Da Infância à Juventude é um road movie no qual a estrada é o tempo: aqui e ali fazemos pequenas paradas, conhecemos novos personagens e situações e, então, seguimos em frente modificados. É um filme que compreende que somos o resultado de uma coleção de instantes mais ou menos memoráveis e que, portanto, somos seres fluidos por natureza – e que acompanhar estas mudanças é uma jornada fascinante.

Há, claro, precedentes no Cinema: a fabulosa série Up, de Michael Apted; os longas dirigidos por Truffaut e estrelados por Jean-Pierre Léaud (como Antoine Doinel); e o bom Todos os Dias, de Michael Winterbottom – que, como conceito, talvez seja o mais similar a esta obra de Richard Linklater por ter sido rodado ao longo de cinco anos em vez de consistir, como os demais citados, em uma série de longas autocontidos. Ainda assim, Boyhood faz Todos os Dias empalidecer em comparação ao contar uma história que, ao contrário daquela vista no longa de Winterbottom, investe mais em incidentes do que em uma trama particular. Não há, aqui, o drama de um pai presidiário ou algo neste sentido, mas sim o drama mais cotidiano (mas não menos impactante) de tentar tocar a vida mesmo diante de problemas financeiros, de brigas com o parceiro e de pequenos percalços quase triviais, como o embaraço de ter que ir para a escola com um corte de cabelo desastroso ou ser repreendido por um adulto.

Assim, à medida que Mason Jr. (Coltrane) vai envelhecendo, mudando a voz, ganhando espinhas e perdendo inibições, testemunhamos também as alterações vividas por sua irmã (interpretada pela filha do diretor) e vemos as rugas surgindo no rosto antes liso de Ethan Hawke – e o simples ato de presenciarmos as ações do tempo sobre aquelas pessoas já teria um apelo particular mesmo que Linklater não usasse a narrativa para discutir questões existenciais universais a partir das trajetórias criadas para aqueles personagens.

Admirável ao conseguir manter a coesão de sua abordagem narrativa ao longo do tempo da produção, Boyhood é inteligente, por exemplo, ao trazer o pai vivido por Hawke usando basicamente a mesma roupa e dirigindo o mesmo carro durante os primeiros anos retratados pelo filme, ilustrando de forma sutil o fato de o sujeito encontrar-se estacionado em sua maturação pessoal – e quando o vemos vestindo terno e exibindo um bigode que o envelhece, percebemos seu crescimento sem que isto tenha que ser verbalizado. Da mesma maneira, as oscilações de humor (e cabelo) de Patricia Arquette servem não só como referência das passagens de tempo, mas das dificuldades enfrentadas por uma mulher que, apesar de todo o esforço pessoal e da dedicação à família, parece fazer sempre escolhas equivocadas em sua vida romântica. Assim, mesmo que Boyhood tenha como foco o crescimento de Mason Jr., Linklater consegue, na periferia da narrativa, ilustrar também a trajetória de seus pais de jovens adultos a indivíduos se aproximando da meia-idade enquanto se preocupam em educar e orientar os filhos e encontrar um rumo para suas próprias vidas.

Além disso, é interessante constatar como o roteiro não ignora a importância de contextos geográficos e históricos na formação daqueles indivíduos – e a recorrência de Bíblias, armas de fogo e música country sugere a influência que a cultura do sul dos Estados unidos exerce sobre os personagens, queiram estes ou não, ao passo que as referências às disputas presidenciais ilustram o impacto que a postura ideológica dos pais pode ter sobre os filhos. Da mesma maneira, o longa evidencia, através da figura de um imigrante que certo dia mantém uma breve conversa com a mãe vivida por Arquette, como podemos provocar impacto sobre aqueles que nos cercam mesmo que jamais nos demos conta disso, já que momentos que muitas vezes soam prosaicos e desimportantes no instante em que ocorrem podem se revelar essenciais quando vistos em retrospecto.

Recheado de um humor doce que frequentemente nasce das interações da amorosa família que ocupa seu centro, Boyhood também é capaz de trazer passagens dolorosas que são concebidas cuidadosamente, sendo admirável, por exemplo, perceber como o problema do segundo marido de Arquette é inicialmente sugerido de forma sutil, quando o sujeito evita até beber diante dos filhos, até o instante em que sua raiva alcoolizada explode durante um almoço no qual não faz qualquer questão de esconder a bebida.

Porém, o mais recompensador neste lindo projeto é perceber como Mason, apesar de (ou precisamente em função de) todos os pequenos traumas que enfrenta, se torna um jovem adulto tão… bacana. Dono de um tom de voz gentil e sereno, de modos carinhosos e de uma personalidade repleta de curiosidade pelo mundo, Mason (e seu carismático intérprete) jamais deixa que esqueçamos do garotinho que se equilibrava perigosamente no balanço quando o vemos já barbado, prestes a partir para a faculdade e atormentado por ansiedades com relação ao futuro – e vê-lo crescer é tão emocionante quando acompanhar o envelhecimento de seus pais, já que, inevitavelmente, isto leva o espectador a refletir sobre a própria trajetória (e embora tenha o privilégio de seguir o crescimento de meus filhos Luca e Nina, confesso que a sensação é a de que tudo passou tão rápido quanto as ligeiras 2h45 deste Boyhood).

Construído como uma jornada de agoras que tornam o presente um conceito sempre dinâmico, esta tocante obra-prima encontra a síntese de seus temas no instante em que a Mãe, diante da constatação de que seu caçula agora é um adulto, suspira já nostálgica ao reavaliar a própria vida e revela ter achado que “haveria mais”. Pois a verdade é que sempre achamos.

E querem saber? Sempre haverá. (5 estrelas em 5)

14) Incompreendida (Incompresa, Itália, 2014). Dirigido por Asia Argento. Roteiro de Asia Argento e Barbara Alberti. Com: Giulia Salerno, Charlotte Gainsbourg, Gabriel Garko, Anna Lou Castoldi, Carolina Poccioni, Gianmarco Tognazzi, Justin Pearson, Alice Pea.

Peço que me perdoem, mas não vou perder um minuto sequer escrevendo sobre este filme detestável que parece acreditar que irritar o espectador com uma galeria de personagens detestáveis em situações detestáveis embalados por músicas detestáveis é a melhor maneira de fazer um estudo de personagem e de discutir inadequação, sentimento de exclusão e alienação parental. Não gostar de um longa é algo comum, mas desejar conferir a este forma humana apenas para poder socá-lo na cara é algo que exige um esforço descomunal. E Asia Argento conseguiu esta proeza. (1 estrela em 5)

 

15) Ida (Idem, Polônia, 2013). Dirigido por Pawel Pawlikowski. Roteiro de Pawel Pawlikowski e Rebecca Lenkiewicz. Com: Agata Trzebuchowska, Agata Kulesza, Dawid Ogrodnik.

Selecionado pela Polônia como pré-candidato ao Oscar 2015, Ida tem início quando a personagem-título, até então conhecida como Anna, encontra-se prestes a fazer os votos de celibato e pobreza que a tornarão freira. É então que a madre-superiora de seu convento determina que, antes da cerimônia, a garota visite sua única parente ainda viva, uma tia cuja existência a noviça desconhecia. Ao encontrar a mulher, no entanto, a moça recebe de cara uma informação importante: é judia, seu nome real é Ida Lebenstein e seus pais morreram durante a Segunda Guerra.

E aí reside o drama central do longa roteirizado pelo diretor Pawel Pawlikowski ao lado de Rebecca Lenkiewicz: ambientado em 1962, o filme se passa numa época em que a vergonha histórica colossal dos eventos recentes ocorridos na Polônia ainda eram varridos para baixo do tapete e o antissemitismo insista em mostrar sua cara feia mesmo depois do Holocausto – e não é à toa que a madre insiste para que Ida parta em sua viagem, já que há, ali, a sugestão de que a religiosa nutre uma experiência de que a garota não retorne (especialmente considerando sua confissão de ter, ao longo dos anos, tentado mandá-la embora inúmeras vezes).

Porém, a tia de Ida, Wanda (Kulesza), também vive numa negação particular do passado, usando a aparição da sobrinha como pretexto para tentar finalmente enfrentá-lo – e, a partir daí, a narrativa assume uma estrutura de road movie enquanto as duas mulheres viajam para a vila na qual os pais de Ida moravam quando desapareceram. O que se segue é uma série de encontros com pessoas igualmente sofridas e deprimidas que, em maior ou menor grau, se mostram incapazes de seguir adiante. A única exceção, claro, é o saxofonista Lis (Ogrodnik), que recebe uma carona da dupla principal e cuja música parece atrair de forma sedutora a jovem noviça – algo que o diretor retrata de forma sugestiva ao trazê-la descendo uma escadaria (uma pequena jornada ao inferno?) para se aproximar daquele som tão irresistível.

Fotografado por Ryszard Lenczewski e Lukasz Zal em uma razão de aspecto de 1.37:1 e em preto-e-branco, Ida usa estas duas escolhas para ressaltar a atmosfera opressiva de um país gravemente ferido pela Guerra – o que, somado à maneira com que os personagens são constantemente empurrados para a parte inferior do quadro, tornando-se pequenos e incompletos, ilustra sua insignificância diante de um Estado totalitário e o peso histórico que carregam sobre os ombros.

Enquanto isso, a veterana Agata Kulesza vive a juíza Wanda como uma mulher deprimida e atormentada pelo passado que emprega o sexo da mesma maneira com que usa o cigarro e a bebida: como ferramenta para esquecer, se distrair e se destruir. Por outro lado, a estreante Agata Trzebuchowska, dona de olhas grandes e profundamente escuros, evoca uma aura de ingenuidade e fascinação diante do desconhecido, embora gradualmente também pareça acusar o golpe das descobertas que faz. Ainda assim, é notável como, no ato final, um breve riso que escapa durante um jantar e o olhar perdido que exibe durante uma prece acabam por trair as profundas mudanças que a jornada provocou na garota.

O que nos traz ao memorável plano que encerra a projeção e que ilustra como, mesmo deixando uma longa e cansativa estrada – sua história e a do país – para trás, é o desconhecido à sua frente que representará seu maior desafio. (4 estrelas em 5)

Festival do Rio 2014 Dia #03

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Videocast | Comente  

Abraço ao aluno Jaime, que veio me cumprimentar após a sessão de Frank e que veio de Porto Alegre apenas para se entregar ao prazer de acompanhar este fabuloso festival.

E vamos aos filmes:

9) Muito Além das Patricinhas de Beverly Hills (Beyond Clueless, Inglaterra, 2014). Dirigido e roteirizado por Charlie Lyne. Narrado por Fairuza Balk.

Nos últimos anos, os vídeo-ensaios se tornaram uma das formas de crítica cinematográfica mais populares na Internet – e não é à toa: quando bem realizados, eles conseguem expor, em poucos minutos e de maneira envolvente, similaridades entre obras que pareciam completamente distintas e padrões a partir de filmes diversos, ressaltando forças e fragilidades dos projetos analisados e ajudando o próprio espectador a treinar seus olhos para identificá-las por si só. Assim, não é surpresa que, nos últimos dois ou três anos, estes exercícios de análise tenham atravessado a fronteira para o formato de longa-metragem, capitaneados especialmente pelo trabalho do irlandês Mark Cousins.

Infelizmente, este Muito Além das Patricinhas de Beverly Hills, dirigido por Charlie Lyne, divide muitas das características das obras de Cousins – e se digo “infelizmente” é porque, apesar da escala admirável de A História do Filme: Uma Odisseia, não posso me apresentar como um de seus fãs, já que Cousins frequentemente estabelece correlações absurdas entre filmes a fim de provar teses e interpretações que raramente sobrevivem a uma segunda análise.

Tomemos, como exemplo, os esforços de Lyne para estabelecer uma leitura particular a partir de longas que giram em torno de personagens adolescentes: em certo instante, ele defende a recorrência de certos tipos em obras absurdamente diferentes sem parecer perceber que, embora possam ser superficialmente similares, estes personagens normalmente se submetem às convenções do gênero no qual estão inseridos – o que torna a adolescente lobisomem sedutora de Possuída completamente diferente das Garotas Selvagens vividas por Neve Campbell e Denise Richards. Da mesma maneira, nas montagens recorrentes exibidas ao longo da projeção, Lyne cria paralelos que só se sustentam caso ignoremos o contexto das obras originais – e ao vermos diversas figuras cruzando piscinas em vários filmes, somos informados de que a ação simboliza um “renascimento” quando, de fato, não é difícil perceber que o simbolismo (quando existente) pode girar em torno de elementos tão distintos quanto angústia, morte, libertação ou opressão, numa complexidade temática que o documentarista opta por ignorar.

Ora, o maior pecado que um crítico ou um acadêmico pode cometer em sua análise é a desonestidade intelectual – e, em Muito Além das Patricinhas de Beverly Hills, Charlie Lyne repete este erro em várias ocasiões, tentando forçar ideias em obras que não as sustentam (e, ao vê-lo classificar como “rebelião” a transformação experimentada pela protagonista de Ela é Demais, quando de fato esta representa uma breve entrega ao conformismo, é algo que insulta não só a inteligência do espectador como desrespeita o filme original, por mais tolo que este seja). Como se não bastasse, o sujeito trata como iguais longas que estão longe de sê-lo – e é inacreditável perceber uma tentativa de igualar títulos excelentes como Três é Demais e Meninas Malvadas a outros pavorosos como Jimmy Bolha e Um Show de Vizinha, que, mesmo quando estudados de perto, jamais oferecem a complexidade que Lyne tenta lhes atribuir.

Mas o maior pecado deste documentário reside em sua cegueira para o moralismo e o machismo de um gênero que constantemente se entrega a fantasias masculinas de dominação e punição da independência feminina, ignorando uma tendência que qualquer um relativamente atento perceberia em um segundo.

Considerando a competência de vídeo-ensaístas como Kevin B. Lee, Nelson Carvajal, Michael Mirasol e Matt Zoller Seitz, é uma pena que o primeiro contato de tantos cinéfilos com este tipo de análise cinematográfica ocorra através de profissionais tão falhos como Cousins e Lyne. Este subgênero do documentário merecia representantes melhores. (2 estrelas em 5)

 

10) Altman, um Cineasta Americano (Altman, Canadá, 2014). Dirigido por Ron Mann. Roteiro de Len Blum.

Basta notar a duração de Altman, um Cineasta Americano, 95 minutos, para constatar que este documentário de Ron Mann dificilmente poderia fazer jus a uma obra e a uma carreira tão complexa quanto à do diretor de M*A*S*H, Nashville, O Jogador e Short Cuts. Por outro lado, não deixa de ser decepcionante perceber que, ao longo da projeção, Mann não consegue oferecer um único insight sobre o cineasta, limitando-se a criar um filme que soa apenas como um “melhores momentos” de sua trajetória.

Iniciando o filme com uma explicação breve sobre a importância de Altman ao ressaltar o naturalismo em seus projetos, bem como seu hábito de subverter gêneros e usá-los para fazer insuspeitas críticas sociais, Ron Mann desperdiça uma galeria invejável de depoentes ao empregá-los com o único propósito de permitir que ofereçam outras definições acerca do personagem-título, ignorando que certamente poderiam presentear o público com relatos que certamente ofereceriam uma janela bem maior para sua personalidade do que as breves frases que ganham permissão de dizer. Ora, já sabemos que Robert Altman era um artista versátil, rebelde, inovador e que se mantinha como outsider em Hollywood – e ouvir atores como Elliott Gould, Robin Williams, Lily Tomlin e Sally Kellerman repetindo estas definições não as tornam menos óbvias.

Fazendo um breve resumo da trajetória do diretor – cujo início se deve a uma combinação de mentiras, cara de pau e muita sorte -, Altman, um Cineasta Americano passa rapidamente por suas contribuições para séries como Hitchcock Presents, Peter Gunn e Bonanza para enfim se concentrar em sua carreira no Cinema. Lamentavelmente, porém, a breve duração do documentário não permite que a retrospectiva se torne mais detalhada a partir daí, o que obriga Mann a praticamente saltar boa parte dos títulos memoráveis comandados pelo biografado – e quando alguém explica que Altman “nem sabia se conseguiria completar as filmagens de Popeye”, o filme subitamente já salta para a estreia daquele projeto sem se preocupar em explicar a natureza da crise enfrentada por Altman e como a contornou.

Soando quase amador ao empregar efeitos sonoros sobrepostos a fotos a fim de condensar ainda mais a cronologia (ao trazer a imagem de uma festa, por exemplo, Mann faz questão de ressaltar o evento com o ruído de uma rolha de champanhe estourando), Altman ainda comete a injustiça de ignorar a importância de críticos como Pauline Kael e Roger Ebert para a carreira do personagem-título, limitando-se a citar uma ou outra passagem dos textos destes. Em contrapartida, Ron Mann investe um longo tempo em apresentar uma imagem de arquivo que traz o patético crítico Gene Shalit, que pouco mais era do que uma caricatura desprezada pelos próprios colegas, atacando uma produção de Altman, o que, somado aos outros instantes nos quais faz questão de ressaltar que “os críticos detestaram” este ou aquele projeto, parece evidenciar um esforço por parte do documentário de estabelecer estes profissionais como inimigos do diretor – quando, na realidade, a crítica frequentemente o mantinha vivo artisticamente apesar da oposição dos executivos dos estúdios.

Interessante ao menos por trazer imagens de arquivo, curtas inéditos e registros da vida familiar do artista, Cineasta Americano é uma homenagem insuficiente cujo melhor momento se encontra justamente em seus primeiros minutos, quando exibe os títulos da filmografia de Altman projetados no céu, sugerindo que, mesmo etéreos como conceitos criativos, seus longas se tornaram incrivelmente sólidos e presentes na percepção de cinéfilos de todo o mundo. (2 estrelas em 5)

 

11) Frank (Idem, Inglaterra/Irlanda, 2014). Dirigido por Lenny Abrahamson. Roteiro de Jon Ronson e Peter Straughan. Com: Domhnall Gleeson, Michael Fassbender, Maggie Gyllenhaal, Scoot McNairy, Shane O’Brien, François Civil, Carla Azar.

Frank conta uma história tão absurda que esta só poderia mesmo ser baseada em fatos reais. Inspirado em um artigo escrito pelo excelente jornalista Jon Ronson, especialista em coletar e narrar passagens envolvendo personagens estranhos e à margem da sociedade, o roteiro co-escrito por este ao lado de Peter Straughan emprega o mítico Frank Sidebottom, criação do falecido comediante Chris Sievey, como âncora emocional de um longa que tinha tudo para se revelar um projeto ancorado em uma única gag visual, mas que, em vez disso, resulta numa narrativa que se equilibra muitíssimo bem entre a comédia e o drama.

Inserindo na trama um alterego do próprio Ronson, que de fato atuou ao lado do verdadeiro Frank, o filme acompanha Jon (Gleeson), um jovem aspirante a músico que, medíocre, passa os dias tentando compor canções a partir de tudo que vê ao seu redor. Certo dia, um acaso qualquer resulta em um convite para que toque teclado na banda ancorada por Frank (Fassbender), cujas estranhas composições empalidecem diante do fato de que seu intérprete insiste em usar uma imensa cabeça feita de papier-mâché não só nos palcos, mas 24 horas por dia. A partir daí, acompanhamos Jon, Frank e aquele estranho grupo (que ainda inclui a mal humorada Clara, vivida por Gyllenhaal) durante quase um ano enquanto se isolam em uma cabana a fim de gravarem um novo álbum.

Mas quem é Frank, afinal? Oscilando entre os papéis de líder de culto, músico ambicioso e simples lunático, o sujeito inspira os companheiros graças ao seu olhar sensível, que encontra inspiração em tudo que vê (sem tentar forçá-la, como fazia Jon), e uma serenidade que pode ser apenas resultado do fato de vermos apenas a expressão imutável e sorridente daquela gigantesca cabeça sorridente que cobre a sua própria. Aliás, é curioso como, ao longo da projeção, acabamos nos acostumando com aquela figura estranha, que se torna quase natural, e passamos a experimentar uma curiosidade crescente acerca da verdadeira natureza do homem por baixo da máscara. Não que sua aparência real importe (e este, mais uma vez, é o erro de Jon, que se concentra na pergunta errada), já que o que de fato intriga é a estabilidade psicológica do sujeito: quando ele descreve as expressões que ocupam seu rosto real, estará dizendo a verdade? Aos poucos, percebemos que o mais provável é que uma máscara congelada de tristeza e dor esteja sendo ocultada por aquela que exibe grandes olhos azuis pintados no papier-mâché – e que Jon não pareça perceber isto é a grande tragédia do filme.

Jon, diga-se de passagem, é um protagonista curioso: se inicialmente simpatizamos com sua insegurança e sua vontade de atingir espaços maiores do que sua humilde mesa de trabalho, gradualmente constatamos que o rapaz talvez não seja uma pessoa tão admirável como gostaríamos de acreditar, já que sua admiração por Frank parece revelar um desejo subjacente de explorá-lo para se promover. Sim, é comovente perceber como sorri, certa manhã, ao sentir-se aceito pelo grupo (especialmente considerando que o posto de tecladista da banda parece amaldiçoado como o de baterista da Spinal Tap), mas finalmente alcançamos um ponto no qual se torna impossível negar que aquele jovem por quem torcíamos se converteu num poço de inconsequente egoísmo, numa transição corajosa por parte do filme e de seu intérprete, Domhnall Gleeson (filho de Brendan).

E esta, afinal, é a diferença fundamental entre Jon e seus companheiros de banda: enquanto estes querem apenas se expressar, o protagonista busca simplesmente fama e reconhecimento, mesmo que não possua o talento necessário para merecê-los. Por outro lado, é intrigante notar como, aos poucos, o próprio Frank revela seu próprio desejo de reconhecimento; mas se o de Jon é obviamente motivado pelo narcisismo, o do personagem-título sugere uma profunda insegurança psicológica e emocional, levando-nos a temer por seu bem-estar mental caso seja novamente frustrado.

Neste sentido, é admirável observar como Michael Fassbender ilustra toda a complexidade de Frank sem poder empregar o recurso mais poderoso no arsenal de um ator: as expressões faciais. Em vez disso, ele modula a voz de Frank para que esta salte da empolgação criativa a um tom quase infantil ao mesmo tempo em que sua expressão corporal sugere um homem que, de forma similar, alterna entre o maníaco e o apático, evidenciando uma psique fragilizada e propensa à depressão.

E quando Fassbender finalmente pode usar o rosto, é notável que mantenha-se contido e quase inexpressivo (embora projetando uma infinidade de dores), já que, sem sua cabeça gigantesca, “Frank” é apenas uma figura trágica e frágil, ilustrando outro equívoco – entre tantos – que Jon comete ao não perceber que a visão romântica do artista atormentado e deprimido é admirável apenas para quem a enxerga de fora. Vista por dentro, esta traz apenas dor. (4 estrelas em 5)

 

12) O Homem Mais Procurado (A Most Wanted Man, Inglaterra/EUA/Alemanha, 2014). Dirigido por Anton Corbijn. Roteiro de Andrew Bovell. Com: Philip Seymour Hoffman, Grigoriy Dobrygin, Nina Hoss, Daniel Brühl, Rachel McAdams, Robin Wright, Rainer Bock, Mehdi Dehbi, Homayoun Ershadi e Willem Dafoe.

O Homem Mais Procurado é um thriller de espionagem feito por e para adultos. Cínico, melancólico e substituindo as sequências de ação da franquia James Bond por outras, extensas, que se concentram no laborioso e meticuloso trabalho executado por espiões que dependem mais de jogos psicológicos do que de armas para realizarem suas tarefas, o filme de Anton Corbijn remete diretamente, em tom e qualidade, ao recente O Espião que Sabia Demais, também baseado em um livro de John le Carré, criando um mundo cujos riscos constantes não conseguem despistar a melancolia de seus habitantes.

Retratando o universo da espionagem num mundo dominado pela paranoia do pós-11 de Setembro, o roteiro de Andrew Bovell tem início com a chegada, na Alemanha, de um imigrante ilegal checheno, o machucado Issa Karpov (Dobrygin). Com sua presença detectada pela Inteligência alemã, ele passa a ser seguido pela equipe do competente Günther Bachmann (Seymour Hoffman), que, incerto acerca dos objetivos de seu alvo, logo percebe que talvez este possa ser empregado como isca para um peixe maior: o empresário Abdullah (Ershadi), cujas obras de caridade talvez sejam fachada para organizações terroristas. A partir daí, Günther começa a cultivar uma rede de informantes para que possa chegar a Issa, eventualmente envolvendo-se com a advogada Annabel (McAdams) e o banqueiro Tommy Brue (Dafoe).

Fascinante precisamente ao retratar as estratégias empregadas pelo protagonista para manipular psicologicamente aqueles que podem lhe trazer informações importantes, O Homem Mais Procurado investe numa narrativa de ritmo estudado que jamais se apressa desnecessariamente, optando, em vez disso, por uma abordagem que busca retratar o processo exaustivo de Günther, que metodicamente usa um indivíduo para chegar a outro e assim por diante.

Dirigindo um carro velho e operando a partir de um escritório sufocante e desarrumado que divide com a parceira Irna (a sempre expressiva Nina Hoss) e o agente Max (Brühl, desperdiçado), Günther em nada vive o glamour que o Cinema costuma associar aos espiões internacionais. Em vez disso, seu cotidiano consiste basicamente em burocracia, brigas interdepartamentais e muito trabalho – e não é à toa que ele parece ter sempre um copo de uísque e um cigarro presos à mão. Comunicando-se sempre com uma voz rouca e cansada que revela um homem à beira da exaustão, Philip Seymour Hoffman constrói Günther como um indivíduo sereno e calmo que, em vez da intimidação, busca cultivar os informantes através da empatia, apresentando-se como uma figura paterna ou apenas como um burocrata com consciência social se isto se fizer necessário para convencê-los de suas boas intenções (e, justamente por isso, quando o sujeito explode percebemos a enormidade de sua frustração).

A riqueza na composição de Hoffman, contudo, reside no fato de que acreditamos nas boas intenções de seu personagem. Sugerindo uma capacidade de compreender até mesmo as motivações de um possível terrorista, Günther é um homem que não enxerga o mundo apenas em branco e preto – e é inteligente o bastante para perceber que a execução sumária de um suspeito provocaria apenas um buraco a ser ocupado por um outro criminoso cuja identidade agora desconheceriam. Parecendo deprimido e desiludido, o Günther de Philip Seymour Hoffman é uma criatura absurdamente complexa que, resultado do último trabalho completado pelo ator antes de sua trágica overdose, ressalta a dimensão da perda representada por sua morte precoce.

Fotografado por Benoît Delhomme em tons dessaturados que constantemente investem num cinza que complementa a melancólica atmosfera chuvosa do filme, O Homem Mais Procurado é mais um passo acertado do cineasta Anton Corbijn depois do ótimo Um Homem Misterioso e do excelente Control: respeitando a inteligência do espectador, o diretor jamais oferece informações mastigadas, permitindo que o público perceba gradualmente os riscos envolvidos na investigação do protagonista e as relações entre os vários personagens. Além disso, Corbijn, como de hábito, mostra-se hábil ao criar metáforas visuais que descartam a necessidade de diálogos expositivos – e o fato de o filme já abrir com uma linha d’água tranquila que eventualmente se torna instável em suas oscilações é um símbolo perfeito para os efeitos da chegada de Issa Karpov à Alemanha. Da mesma maneira, é fascinante perceber como o realizador enfoca uma conversa entre este e a advogada Annabel depois que esta é abordada por Günther, já que as divisórias de plástico que se interpõem entre ela e o cliente sugerem precisamente a barreira de mentiras (mesmo bem intencionadas) construída pelos espiões. Para completar, é admirável como Corbijn usa a profundidade de campo reduzida para sugerir constantemente a presença de alguém não identificado ao fundo das cenas, como se houvesse sempre a possibilidade de que as conversas mantidas pelos personagens estivessem sendo monitoradas por um desconhecido.

Demonstrando a habilidade de sua construção narrativa ao levar o espectador a interpretar um simples ato de assinar um documento como se este tivesse o impacto dramático de um tiro disparado à queima-roupa, O Homem Mais Procurado é, desde já, um dos melhores filmes do ano. E também um testemunho inequívoco de como todos perdemos com a morte de um ator tão fabuloso quanto Philip Seymour Hoffman. (5 estrelas em 5)

Festival do Rio 2014 Dia #02

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Videocast | 1 comente

Abraço carinhoso aos leitores Vinícius, Karina, Fernanda e Alexandre, que vieram conversar comigo durante os intervalos das sessões ontem.

Bom, vamos aos filmes:

5) A Corrente do Mal (It Follows, EUA, 2014). Dirigido e roteirizado por David Robert Mitchell. Com: Maika Monroe, Olivia Luccardi, Keir Gilchrist, Lili Sepe, Bailey Spry, Jake Weary, Daniel Zovatto.

Uma vizinhança calma num entardecer de outono. Ruas vazias, um ou outro vizinho chegando em casa com compras e folhas acumuladas nas sarjetas. Subitamente, a porta de uma das confortáveis casas se abre e uma garota dispara para fora numa corrida que se torna desajeitada em função dos saltos altos que ela calça. Desesperada, ela vasculha em torno de si e inicia outra fuga de algo que o plano aberto não consegue revelar por alguma razão. O que está havendo? Do que ela foge? Por que o desespero?

É assim que começa A Corrente do Mal, escrito e dirigido por David Robert Mitchell e que se revela um terror cada vez mais raro: aquele que, mesmo recaindo em clichês do gênero vez por outra, jamais se torna óbvio em seus sustos e prefere apostar na atmosfera de tensão crescente do que em momentos que tentam levar o espectador a saltar na poltrona através de acordes altos e súbitos na trilha sonora. Além disso, ao contrário de tantas obras similares, este longa não se torna pior à medida em que descobrimos o que há por trás de seu mistério – que, logo um personagem nos informa, consiste em uma espécie de maldição transmitida através do sexo e que condena o infectado a ser perseguido por algum tipo de espírito capaz de assumir qualquer aparência e que, mesmo caminhando de forma lenta, é inexorável em sua marcha de destruição, eventualmente alcançando sua vítima ao desgastá-la emocional e psicologicamente.

Não é preciso ser um grande estudioso de semiótica, aliás, para compreender as intenções de A Corrente do Mal: por mostrar-se como um inimigo que pode surgir a qualquer momento, jamais pode ser detido, adota qualquer forma e sempre alcança seus alvos, o vilão concebido por Robert Mitchell é claramente um símbolo da própria Morte e da passagem de tempo que acaba por nos entregar aos seus braços. Ao mesmo tempo, o fato de ser uma maldição que se contrai pelo sexo, a criatura tem, claro, certo teor moralista tão comum no gênero terror, embora, aqui, as coisas se tornem mais interessantes quando percebemos que, nos momentos-chave, o tal espírito parece assumir as feições dos pais de suas vítimas – e, num filme praticamente sem adultos, estas aparições súbitas das figuras de autoridade em instantes de destruição acabam por evidenciar a tentativa do roteiro de ilustrar, através do sobrenatural, as angústias, culpas e ansiedades adolescentes não só dos personagens, mas do próprio espectador (tenha este a idade que tiver).

Para ressaltar esta atemporalidade de sua mensagem, vale apontar, o design de produção do longa investe em detalhes que tornam a própria ambientação da trama difícil de ancorar em uma época específica: embora celulares sejam raros (ou mesmo inexistentes), uma personagem usa um leitor de textos similar ao Kindle ao mesmo tempo em que os aparelhos de tevê vistos em tela trazem desajeitadas antenas e aqueles seletores de canais redondos que emitiam um tactactac ruidoso ao serem girados. Da mesma maneira, quando um casal vai ao cinema, o local traz uma cortina vermelha gigantesca e se revela um palácio de projeção do tipo praticamente inexistente hoje em dia – e, para tornar tudo ainda mais curioso, conta com um músico tocando uma pianola ao lado da tela.

Enquanto isso, o diretor David Robert Mitchell adota uma estratégia narrativa inteligente ao frequentemente empregar panorâmicas lentas que vão revelando o ambiente em torno dos personagens gradualmente – e, ao contrário de boa parte dos colegas de gênero, que apostam em quadros fechados para sustos súbitos, aqui o cineasta investe em planos abertos justamente por saber que qualquer pessoa que surja caminhando em algum ponto da tela levará o espectador a uma tensão imediata. Por outro lado, os interiores são rodados de maneira claustrofóbica (em cenários apropriadamente enfumaçados) com o propósito de estabelecer o fato de que os heróis podem se encontrar em um beco sem saída caso o vilão surja de repente.

Investindo numa trilha com componentes eletrônicos que parecem fazer uma homenagem apropriada a John Carpenter e ao seu Halloween, A Corrente do Mal também acerta ao incluir momentos importantes de alívio cômico ao reconhecer o absurdo da situação vivida por aqueles jovens – e não deixa de ser divertido constatar, por exemplo, como um adolescente não hesitará em ir pra cama com uma bela mulher mesmo que saiba que isto o condenará a ser perseguido por um espírito que caminhará lentamente em sua direção até alcançá-lo e matá-lo (quem nunca?).

Impecável também em seu desfecho – outro ponto no qual boa parte dos filmes do gênero tendem a ir para o lugar comum do susto final -, A Corrente do Mal é uma obra que comprova que, nas mãos de um bom diretor, um longa de terror é uma obra de arte tão digna e memorável quanto o mais lacrimoso dos dramas de época. (4 estrelas em 5)

6) Blind (Idem, Noruega, 2014). Dirigido e roteirizado por Eskil Vogt. Com: Ellen Dorrit Petersen, Henrik Rafaelsen, Vera Vitali, Marius Kolbenstvedt, Stella Kvam Young.

Ao assistir a este Blind, frequentemente me lembrei de uma frase de Dziga Vertov sobre as potencialidades da montagem: “Construí um aposento com doze paredes que filmei ao redor do mundo”. Esta fluidez física permitida pela montagem, aliás, já resultou em experimentos narrativos brilhantes em obras que vão de O Ano Passado em Marienbad (e Resnais, diga-se de passagem, era um mestre em criar mágica com seus cortes) ao curta A Movie, de Bruce Conner – e se cito estes exemplos magistrais ao lado deste trabalho escrito e dirigido pelo norueguês Eskil Vogt, é porque realmente acredito que mereça figurar nesta lista.

Responsável também pelo roteiro do excepcional Oslo, 31 de Agosto, Vogt cria aqui um experimento narrativo que gira em torno de Ingrid (Petersen), uma mulher que se torna cega já na idade adulta em função de uma doença que jamais é identificada. Sem ter forças para sair de casa, ela passa os dias em seu apartamento, passando a desconfiar de que ocasionalmente seu marido retorna silenciosamente para observá-la. Ao mesmo tempo, a moça, cada vez mais insegura por não contar com as informações visuais que poderiam tranquilizá-la com relação às intenções daqueles que a cercam, passa a imaginar o conteúdo de conversas que o companheiro pode estar mantendo na Internet – entregando-se, também, a um exercício de escrita que se concentra em um casal que pode ou não ter bases na realidade.

É justamente este “pode ou não” que torna Blind tão fascinante: no mundo escuro de Ingrid, afinal, tudo “pode ou não” – e, assim, quando ela se estica para tentar tocar o teto (que se encontra a uns três ou quatro metros de altura), Vogt e o montador Jens Christian Fodstad incluem um plano-detalhe que traz a mão da protagonista quase encostando no alto embora saibamos que isto seria impossível. Da mesma maneira, como a garota perde as referências espaciais, isto acaba se refletindo em seus relatos e, quando ela surge descrevendo uma passagem que traz dois homens conversando em um café diante de um painel de vidro, os planos e contraplanos frequentemente sugerem que os interlocutores se encontram em espaços diferentes: um pode estar no café enquanto o outro surge em um trem em movimento apenas para, no segundo seguinte, o primeiro aparecer em um ônibus enquanto o segundo retorna ao restaurante.

Este exercício de montagem, porém, jamais resulta em uma narrativa de difícil compreensão ou mesmo entediante. Ao contrário: justamente por experimentar com o espaço da mise-en-scène, Blind se converte em uma obra memorável a partir de uma história que, em si, não ofereceria grandes promessas. Aplicando com precisão os momentos em que a narrativa mergulha na subjetividade mental da protagonista, o filme ainda consegue cruzar a fronteira entre suas fantasias e a realidade – e constantemente somos surpreendidos pelos raccords brilhantes concebidos pelo montador Fodstad, que, num corte rápido, consegue mudar o gênero de um personagem ou alterar todo o ambiente em torno de duas pessoas que conversam casualmente.

Intrigante também em seu design sonoro, que reflete a confusão de Ingrid ao não conseguir confirmar visualmente sons que suspeita ter ouvido (uma rajada de balas, por exemplo, que não é acompanhada da costumeira gritaria que se seguiria), Blind é uma obra fabulosa que usa o potencial da montagem para mergulhar o espectador em uma narrativa ao mesmo tempo coesa e profundamente experimental. E não é à toa que, em certo instante, Ingrid diga gostar de ouvir a tevê por saber que, na maior parte do tempo, as imagens não são necessárias para acompanhar com tranquilidade o que se passa nas produções criadas para esta mídia – imagens que, neste filme protagonizado por uma cega, são absolutamente essenciais. (5 estrelas em 5)

7) Coração Mudo (Stille hjerte, Dinamarca, 2014). Dirigido por Bille August. Roteiro de Christian Torpe. Com: Ghita Nørby, Morten Grunwald, Paprika Steen, Danica Curcic, Jens Albinus, Vigga Bro, Oskar Sælan Halskov, Pilou Asbæk.

Esther é uma mulher já idosa que, vitimada pela mais cruel das doenças (a esclerose lateral amiotrófica), não consegue se acostumar com a ideia de perder sua independência e sua dignidade em seus dias finais no planeta – e que, com a concordância da família, decide cometer suicídio antes que seu corpo enfraqueça a ponto de tornar a ação inviável. Assim, ela reúne as filhas, os companheiros destas, seu neto, sua melhor amiga e o marido para um último final de semana antes que encerre a própria vida.

Basta ler o resumo da trama principal de Coração Mudo, logo acima, para desconfiar de que este filme escrito por Christian Torpe e dirigido por Bille August se revelará um melodrama dos mais apelativos – mas esta impressão seria profundamente incorreta. Evitando as lágrimas fáceis, o longa opta por descartar momentos de maior maniqueísmo a fim de se concentrar na dinâmica entre os membros daquela família amorosa, mas longe da perfeição. Assim, ao longo dos 96 minutos seguintes, a narrativa sugere conflitos recorrentes, segredos do passado, possibilidades surpreendentes para o futuro e instantes de humor inesperados ao acompanhar uma galeria de personagens multifacetados que são vividos com sensibilidade pelo coeso elenco.

Ancorado de certa forma pelos contrastes entre as duas irmãs Heidi (Steen) e Sanne (Curcic), Coração Mudo não demora a estabelecer como as mulheres parecem diferentes em tudo, da idade às personalidades: se a primeira é controladora e parece ter uma vida estruturada, a segunda, bem mais jovem, insiste em um namoro cheio de idas-e-vindas e se mostra emocionalmente descontrolada – e é recompensador acompanhar as mudanças eventuais em seus comportamentos à medida em que o fim de semana caminha para o fim. Enquanto isso, a própria Esther (Nørby) mantém a narrativa centrada graças à forma objetiva com que encara o próprio fim: sim, ela teme o que (não) virá, mas sabe que o que viria seria infinitamente pior, o que lhe permite até mesmo brincar com o que está por vir de maneira surpreendente.

Não que estas brincadeiras disfarcem a gravidade do que está para acontecer – e é comovente, por exemplo, perceber o desespero de Heidi para que possam viver “um dia significativo”, como se pudessem forçar a criação de memórias e instantes de catarse emocional apenas porque o tempo para vivê-los se encontra limitado. Ao mesmo tempo, quando vemos Esther ao lado de seu dedicado e amoroso marido Poul (Grunwald), somos levados a imaginar que tipo de conversa um casal que se encontra junto há décadas teria ao saber que um deles partirá em breve.

Aliás, é precisamente ao se encontrar no fato de que Esther está vivendo uma série de últimos momentos que Coração Mudo se torna tão eficiente do ponto de vista dramático. É tocante, por exemplo, perceber como aquela frágil senhora decide cochilar após despertar não por querer dormir mais um pouco, mas para experimentar a sensação de acordar uma última vez – e, de forma similar, é impossível não constatar o caráter de despedida que qualquer objeto assume, por mais prosaico que seja, quando sabemos que não voltaremos a vê-los (e ver Esther passando as mãos gentilmente no encosto das cadeiras nas quais se sentou por anos sem jamais notá-las de fato é algo que transmite esta finitude sem qualquer necessidade de diálogos expositivos que enfraqueceriam a ideia).

Tornando-se ainda mais melancólico graças à beleza das locações empregadas e da linda fotografia de Dirk Brüel (que contrapõe os interiores com luz quente e aconchegante à frieza da paleta que abraça os personagens em seus instantes de fraqueza), Coração Mudo é um filme que oscila com segurança entre a nostalgia, a melancolia e o humor – e a sequência envolvendo uma roda de maconha é memorável em sua hilária humanidade. Além disso, o design de produção revela uma inteligência sutil ao decorar a casa de Esther com relógios que parecem quase onipresentes, levando o espectador a sentir, quase subliminarmente, a passagem cruel do tempo.

Mas é mesmo em seus instantes de doçura que o filme de Bille August acaba por conquistar o espectador – e Coração Mudo é um drama maduro e paciente o bastante para compreender que, às vezes, não há imagem que emocione mais do que aquela que revela simplesmente a sensação gostosa de podermos, por alguns segundos, encostar a cabeça em alguém que amamos profundamente. (4 estrelas em 5)

 

8) Burying the Ex (Idem, EUA, 2014). Dirigido por Joe Dante. Roteiro de Alan Trezza. Com: Anton Yelchin, Ashley Greene, Alexandra Daddario, Oliver Cooper, Dick Miller.

Joe Dante é um cineasta que, ao longo da carreira, se mostrou um mestre em combinar humor e comédia de forma irreverente e eficaz. De Gremlins a O Buraco, passando por Meus Vizinhos São um Terror e episódios de Além da Imaginação e mesmo The Naked Gun (que daria origem a Corra que a Polícia Vem Aí), Dante criou uma filmografia que, mesmo claramente voltada a um público infanto-juvenil, jamais excluía os espectadores adultos, que sempre encontravam graça em suas brincadeiras de linguagem e mesmo na ingenuidade de boa parte de seu humor. Infelizmente, esta ingenuidade, que funcionou tão bem na década de 80, começou a mostrar certo desgaste nas obras que o diretor concebeu nos anos seguintes – e é justamente este o problema que impede que Burying the Ex, seu novo trabalho, se torne tão eficaz quanto boa parte de seus longas anteriores.

Inspirado em um curta escrito e dirigido pelo roteirista Alan Trezza, o filme conta a história de Max (Yelchin), um jovem que, trabalhando em uma loja de artigos de terror, namora a lindíssima, mas insuportável Evelyn (Greene), cuja obsessão pelo “ecologicamente correto”, somada à sua possessividade emocional, tornam a vida do rapaz infernal. É então que a moça morre em um acidente de trânsito, mas, ressuscitada por uma promessa de que passaria toda a eternidade ao lado do namorado, retorna como um zumbi, impedindo que Max possa se envolver com Olivia (Daddario) e irritando o meio-irmão do protagonista, Travis (Cooper).

Assumidamente tolo até mesmo ao trazer o artefato que ressuscita Evelyn como um diabinho de porcelana que solta fumaça e cujos olhos se acendem em um vermelho intenso, Burying the Ex é um daqueles filmes que trazem o herói consultando um manual de magia para descobrir como se livrar de um vilão e que não se furta de fazer piadas com fluidos nojentos que parecem sempre mirar a boca do protagonista – e isto não é necessariamente ruim, já que, aqui e ali, o longa realmente consegue arrancar boas risadas com seu humor despretensioso e óbvio.

Infelizmente, é esta obviedade que gradualmente torna a experiência menos memorável, a começar pela trilha sonora que faz questão de ressaltar cada piadinha (incluindo gongos quando um personagem segura uma espada) e pelos efeitos sonoros que transformam as lambidas sensuais de Evelyn em um espetáculo grotesco. Da mesma maneira, o design de produção jamais investe em qualquer tipo de sutileza: do escritório de Evelyn, que traz telefones, abajures e diversos elementos num verde chapado (que mais tarde cobrirá seu apartamento) até a decoração inicial da casa de Max, repleta de cartazes de terror, Burying the Ex é um filme que parece acreditar ser necessário atirar suas piadas na cara do público, o que acaba por prejudicá-lo (é difícil rir de uma gag quando seu autor faz questão de ressaltar como esta é engraçada).

Já o elenco, curiosamente, acerta ao investir em abordagens diametralmente opostas: enquanto Anton Yelchin se recusa (acertadamente) a assumir estar em uma comédia, vivendo Max com uma seriedade que torna, por contraste, sua situação mais divertida, Ashley Greene investe na caricatura absoluta, transformando Evelyn em uma namorada que se mostra monstruosa mesmo antes de retornar como zumbi. E se Alexandra Daddario fica presa ao ingrato papel de promessa amorosa, Oliver Coooper, que parece o resultado de uma transa de Seth Rogen e Jonah Hill, protagoniza seus bons momentos ao encarnar Travis numa figura divertidamente grotesca.

Assim, é uma pena que falte, ao filme, aquela atmosfera irreverente que caracteriza os melhores trabalhos de Joe Dante – e é triste constatar que, mesmo trazendo a infalível ponta de Dick Miller, Burying the Ex é uma produção que poderia ter sido comandada por qualquer outro diretor. (3 estrelas em 5) 

Festival do Rio Dia #01

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Videocast | 2 comentários

Abraços ao leitor Ricardo, que, antes da sessão de Mapa para as Estrelas, gentilmente veio desejar boa sorte ao Cinema em Cena. (Ei, quer ajudar a manter o site vivo? Quer? Legal! Então clique aqui!)

Vamos aos filmes:

1) Maria e o Homem-Aranha (María y el Araña, Argentina, 2013). Dirigido por María Victoria Menis. Roteiro de María Victoria Menis e Alejandro Fernández Murriay. Com: Florencia Salas, Diego Vegezzi, Mirella Pascual, Luciano Suardi.

Logo no início de Maria e o Homem-Aranha, encontramos a personagem-título acompanhando brincadeiras e danças infantis de um grupo de amigos em um terreno baldio que sugere um ar quase bucólico em seus verdes e no lago que se encontra próximo – e, então, a diretora María Victoria Menis e o montador Alejandro Brodersohn cortam subitamente para os colossais arranha-céus que podem ser vistos no horizonte e percebemos que, em vez de um tom bucólico, aquela paisagem revela uma prisão social: estamos na periferia de Buenos Aires e aqueles adolescentes são vítimas das desigualdades econômicas de um país de terceiro mundo.

No entanto, a questão social representa apenas a superfície do roteiro co-escrito por Menis e Alejandro Fernández Murriay: Maria (Salas) não é só uma adolescente com profundas carências financeiras; é, antes de tudo, uma jovem com carência afetiva. Abandonada pela mãe e vivendo com a avó (Pascual) e Garrido (Suardi), o namorado desta, a garota é uma estudante boa o suficiente para merecer uma bolsa integral em um colégio da região, mas também triste a ponto de preocupar a professora que tanto a admira. Aos poucos, percebemos que esta retração deve-se não a uma timidez natural, mas a traumas constantes: Maria vem sofrendo abusos sexuais por parte de Garrido. É então que a menina conhece um rapaz (Vegezzi) que, vestindo-se de Homem-Aranha, faz malabarismos no metrô da cidade em busca de alguns trocados com os quais possa cuidar do pai doente.

Embora a personagem tenha 14 anos de idade, aliás, não é à toa que usei a palavra “menina” para descrevê-la no parágrafo anterior: ainda que já adolescente, Florencia Salas encarna Maria como uma criança cujo corpo se desenvolveu quase como se para contrariar sua dona. Introspectiva e emitindo meia dúzia de palavras ao longo de toda a projeção, Maria é uma garota cuja imensa tristeza se torna ainda mais tocante quando contraposta aos poucos momentos nos quais ela sorri – e seu sorriso é algo que precisa ser visto para ser apreciado, sendo um daqueles exemplares que levam a pessoa a fechar os olhos quase completamente e a mostrar todos os dentes, contagiando qualquer um que esteja nas proximidades. Por outro lado, o “Homem-Aranha” é um jovem de expressão sempre fechada, como se estivesse sempre ansioso para provocar uma briga na qual pudesse socar alguém que, naquele momento, representaria todas as suas frustrações diante do universo – e é quando conhece Maria que ele troca esta postura por um sorriso discreto, mas que, em sua natureza, parece surgir em seu rosto por vontade própria, como se o garoto fosse incapaz de impedi-lo.

Estas performances sutis e delicadas, vale apontar, são resultado também da sensibilidade da cineasta Maria Victoria Menis, que também é hábil ao retratar os abusos sofridos por Maria de maneira sutil, mas impactante: ao vermos a sombra de seu estuprador projetada sobre a menina, que se encolhe na cama à espera do ataque, enxergarmos mais do que um pervertido, mas um monstro – numa ideia que é ressaltada pelo plano excepcional no qual este, usando óculos de festa que trazem pequenas lanternas nas laterais, surge quase como um alienígena hostil em busca de sua presa. Assim, quando contrapomos esta figura grotesca ao cantinho humilde que a menina chama de quarto, com seus desenhos infantis espalhados nas paredes sobre a cama, a natureza vil daquele crime se apresenta ainda mais chocante embora nada gráfico seja mostrado pela diretora.

Da mesma maneira, o romance entre o casal principal é enfocado com delicadeza por Menis, que é inteligente também ao trazer os jovens numa cena delicada no metrô no qual praticamente trabalham enquanto, ao fundo, ouvimos uma trilha romântica que eventualmente se revela diegética, já que está saindo da pequena viola de um companheiro pedinte que toca por moedas.

De modo geral, porém, este é um instante raro de leveza em uma narrativa que na maior parte do tempo surge como um verdadeiro pesadelo e cujos habitantes, por mais frágeis que sejam, podem esperar da vida – no máximo – um mínimo de amor. 4 estrelas em 5

 

2) Sétimo (Séptimo, Argentina, 2013). Dirigido por Patxi Amezcua. Roteiro de Patxi Amezcua e Alejo Flah. Com: Ricardo Darín, Belén Rueda, Osvaldo Santoro, Luis Ziembrowski, Guillermo Arengo, Abel Dolz Doval, Charo Dolz Doval, Jorge D’Elía.

Sétimo é um thriller dinâmico que, mesmo ambientado na maior parte do tempo em um único ambiente (um prédio), é suficientemente ágil para levar o espectador a se envolver na lógica de seus momentos individuais sem ter tempo para refletir exatamente sobre o que está vendo – e é apenas quando a projeção chega ao fim que qualquer breve discussão sobre o filme acaba revelando uma série de furos que tornam a obra frágil em retrospecto, impedindo que se solidifique como uma experiência memorável na mente do público.

Escrito pelo diretor Patxi Amezcua ao lado de Alejo Flah, o roteiro acompanha o bem-sucedido advogado Sebastián (Darín), que se encontra prestes a encerrar um dos maiores casos de sua vida e que traz implicações políticas graves. Enquanto se prepara para ir ao tribunal, ele busca os dois filhos na casa da ex-esposa Delia (Rueda) a fim de levá-los para a escola e, numa brincadeira, permite que as crianças desçam pelas escadas enquanto ele usa o elevador. Ao chegar ao térreo, porém, ele descobre que os filhos desapareceram e, então, inicia uma busca desesperada que envolve diversas possibilidades: teria sido o sequestro uma estratégia dos inimigos de seu cliente? Ou o responsável seria aquele homem estranho do quarto andar? Ou o vizinho, inspetor de polícia, com o qual teve uma discussão durante a reunião de condomínio?

Claro que, pelo número limitado de personagens, não se espera que Sétimo traga uma revelação das mais surpreendentes, mas, na medida do possível, o roteiro provoca boas reviravoltas especialmente ao lidar com as expectativas do público: quando Sebastián vai perceber que aquilo pode ter a ver com seu caso? Será que ele não vai investigar o “Urso” que dividiu com ele o elevador? Ao plantar pistas (falsas e autênticas) e esperar que o espectador perceba-as antes do protagonista, o filme cria um suspense eficaz através de nossa frustração diante das ações pouco focadas do herói.

Não que Sebastián seja estúpido – e Ricardo Darín, um dos mais competentes atores da atualidade, se esforça para retratar a maneira furiosa com que o sujeito tenta desvendar o que aconteceu. Sugerindo uma tensão crescente através da respiração pesada do personagem, Darín encarna Sebastián como um homem ambicioso, mas cujo amor pelos filhos suplanta quaisquer aspirações profissionais, já que não hesita em deixar a audiência de lado quando as crianças somem. Pai carinhoso e claramente ressentido diante do recente divórcio (mesmo que reconheça sua culpa no processo), o advogado é um herói eficaz não só graças à humanidade que Darín confere a ele, mas também à sua complexidade: percebemos que é um homem falho e corrompido, mas jamais questionamos seu amor pela família e os sacrifícios que faz para salvá-la.

Empregando planos frequentemente fechados para sugerir ainda mais uma atmosfera claustrofóbica, o diretor Patxi Amezcua exagera pontualmente no número de travellings em torno do protagonista, que, longe de criarem uma rima visual ou salientarem a já presente claustrofobia, soam apenas como evidência de sua falta de imaginação. Por outro lado, é interessante perceber como o filme aqui e ali parece oferecer pequenos instantes de alívio (como no instante em que Sebastián julga ouvir os filhos no elevador) que, ao serem descartados, ajudam a tornar a atmosfera ainda mais tensa.

Infelizmente, o roteiro, como já dito anteriormente, não sustenta um escrutínio maior – já começando de uma pergunta essencial: e se as crianças não tivessem descido pela escada? Além disso, para um projeto que se propõe a criar um mistério que essencialmente recria a velha proposta do “assassinato no quarto fechado”, a solução apresentada para o desaparecimento das crianças é decepcionante e prosaica demais, mesmo que a narrativa busque oferecer alguma satisfação emocional em seu desfecho (sem, com isso, lidar com todas as consequências que as ações tomadas pelo protagonista ao longo da projeção inevitavelmente trarão).

Ainda assim, Sétimo é eficaz enquanto dura. E traz Ricardo Darín carismático e eficiente como sempre. É o que basta, não? (3 estrelas em 5)

 

3) Quod erat demonstrandum (Idem, Romênia, 2013). Dirigido e roteirizado por Andrei Gruzsniczki. Com: Sorin Leoveanu, Ofelia Popii, Florin Piersic Jr., Dorian Boguta, Virgil Ogasanu, Marc Titieni.

Não é coincidência que Quod erat demonstrandum conte uma história ambientada em 1984. Situada durante o governo do ditador romeno Nicolae  Ceausescu, o filme traz ecos do livro de George Orwell na maneira com que os cidadãos vistos na narrativa são constantemente monitorados pelo Estado e mesmo influenciados para que ajudem a espionar amigos e vizinhos. No processo, o filme escrito e dirigido por Andrei Gruzsniczki se apresenta não só como um retrato de uma época triste da história de seu país, mas como uma reflexão sobre a própria natureza humana.

Acompanhando inicialmente o matemático Sorin Parvu (Leoveanu), que desenvolveu uma solução importante para o teorema de Fermat, o roteiro ilustra sua frustração por não conseguir ser publicado em nenhuma revista importante, já que não é filiado ao partido que rege o país, tornando-se um indivíduo naturalmente “suspeito” em função disso. Determinado a publicar seus achados em algum país estrangeiro, ele passa a ser monitorado pelo órgão de Inteligência do país e por um de seus principais agentes, Voican (Piersic) – que, ao seu próprio modo, encontra-se frustrado por não conseguir subir na carreira também graças a questões políticas. Para provar que Sorin é um traidor em potencial, Voican tenta manipular a amiga deste, Elena (Popii), que quer conseguir um passaporte a fim de se reunir ao marido, que se exilou na França ao participar de um congresso.

Elegante na construção de sua narrativa ao estabelecer paralelos frequentes entre os personagens que criam uma simetria que faz eco à própria formulação matemática de Sorin, Quod erat demonstrandum ainda é beneficiado pela ótima fotografia em preto-e-branco de Vivi Dragan Vasile, que não só ressalta a recriação de época como ainda mergulha a narrativa em um clima naturalmente opressivo e melancólico. Fugindo do estilo que se tornou habitual no Novo Cinema Romeno, o diretor Andrei Gruzsniczki, por sua vez, não adota os longos planos estáticos que caracterizam a produção recente do país, optando, em vez disso, por movimentos mais fluidos e cortes (relativamente) mais frequentes (o “relativamente”, claro, se deve ao fato de que, mesmo com mais cortes, o filme jamais se aproxima da média de duração dos planos da maior parte do Cinema ocidental). Por outro lado, a essência do Novo Cinema Romenos se mantém aqui, já que a obra constantemente usa ações prosaicas de seus personagens para ilustrar suas personalidades – seja um avô colocando pilhas no rádio, um garoto que coleciona pedras ou uma mulher que usa produtos racionados para presentear os amigos.

Aliás, a recriação de época feita pelo designer de produção Christian Niculescu é fantástica ao trazer os ambientes diminutos habitados por aqueles indivíduos e ao ressaltar a realidade opressiva que habitam através de seus lares entristecidos e com poucos elementos decorativos. Da mesma maneira, ver Sorin empurrando o carro em uma longa fila para abastecê-lo revela muito mais sobre as falhas de um governo supostamente preocupado com o coletivo do que poderíamos apreender através de longos diálogos expositivos.

Vale apontar, neste sentido, que uma das principais virtudes de Quod erat demonstrandum reside em sua habilidade ao expressar visualmente ideias complexas – e quando vemos Sorin encarregado de tirar uma foto de um grupo de pessoas que celebram um batizado, percebemos como o pobre sujeito vive uma existência de exclusão em função até mesmo de sua própria introspecção, já que quem tira o retrato é, por definição, excluído da lembrança que este passa a representar. Além disso, é interessante observar como Voican frequentemente pede que seus contrariados informantes assinem um pequeno documento (“É só uma formalidade”) que, de maneira sutil, oficializa suas traições, tornando-os colaboradores antes mesmo que se deem conta disso.

Em última análise, porém, a força deste desgastante filme é mesmo sua capacidade de escancarar a maior das contradições de um regime totalitarista como o de Ceausescu: aquela que, supostamente em nome de um governo que procura valorizar o coletivo, acaba por inspirar um profundo individualismo em cada um de seus sufocados cidadãos. (4 estrelas em 5)

 

4) Mapa para as Estrelas (Maps to the Stars, Canadá/EUA, 2014). Dirigido por David Cronenberg. Com: Bruce Wagner. Com: Julianne Moore, Mia Wasikowska, John Cusack, Olivia Williams, Robert Pattinson, Sarah Gadon, Evan Bird, Carrie Fisher.

Em uma carreira repleta de personagens e momentos repugnantes, o cineasta canadense David Cronenberg talvez tenha concebido, neste Mapa para as Estrelas, uma galeria povoada por algumas de suas criações mais repulsivas. No entanto, em vez de um homem cujo DNA se mistura ao de uma mosca ou de um indivíduo cuja cabeça explode subitamente, o filme se concentra em figuras que, se julgarmos por todos os livros e relatos jornalísticos sobre a comunidade cinematográfica de Los Angeles, são essencialmente reais: os astros e estrelas de Hollywood.

Roteirizado por Bruce Wagner, que de certa forma construiu toda uma carreira (medíocre) a partir da desconstrução da “meca do Cinema”, o filme acompanha a atriz Havana Segrand (Moore), que, decadente, se encontra obcecada em protagonizar a refilmagem de um clássico estrelado por sua própria mãe na juventude (uma estrela (Gadon) que morreu precocemente e de forma trágica em um incêndio). Enquanto isso, o astro mirim Benjie Weiss (Bird), recém recuperado de dependência química embora tenha apenas 13 anos (“Funcionou com Drew Barrymore”, diz alguém em certo instante), prepara-se para protagonizar uma continuação de seu maior sucesso, sendo perturbado por visões do fantasma de uma garota que visitou quando esta encontrava-se ainda hospitalizada. Para complicar ainda mais a situação, a irmã mais velha do rapaz, Agatha (Wasikowska), voltou à cidade depois de passar anos internada por ter incendiado a casa em que moravam – e seu retorno é mal visto por seus próprios pais, Christina (Williams) e o dr. Stafford Weiss (Cusack), um guru de autoajuda prestes a lançar seu novo livro.

A partir desta galeria de personagens desajustados, Cronenberg cria uma colagem quase surreal que, em certos momentos, parece oscilar entre O Jogador e Cidade dos Sonhos, mas sem jamais atingir a grandeza temática destes. Não que esta seja a intenção do cineasta, que parece bem mais interessado em explorar um curioso humor negro a partir da incapacidade que seus personagens têm de se identificar com qualquer questão minimamente humana, já que surgem como seres despreparados para a vida e que parecem fisicamente impossibilitados de escutar um “Não!” sequer, já que o narcisismo que define suas personalidades já parece ter cruzado a fronteira da pura sociopatia.

Frequentando uma sociedade na qual a aparência define as relações pessoais e profissionais, os homens e mulheres vistos em Mapa para as Estrelas são constantemente pressionados pela própria finitude, já que, naquele mundo, uma atriz jovem como Emma Watson já é cogitada para papéis de “mãe” e cada recusa em um teste significa mais um dia no qual aspirantes a atores e roteiristas se veem obrigados a trabalhar como garçons, motoristas e assistentes pessoais. Não é à toa, portanto, que cada interação soa menos como uma oportunidade de estabelecer uma ligação emocional com alguém e mais como uma oportunidade profissional, já que mudanças de religião são vistas como meios de impulsionar a carreira e flertes são abandonados assim que se apresentam ineficazes como networking.

Construindo a narrativa a partir de pequenas informações pontuais que vão se juntando em um quebra-cabeças que, mesmo jamais formando um quadro completo e coeso, é curioso justamente por sua fragmentação, Mapa para as Estrelas constantemente se diverte com a falsidade de seus personagens e mesmo com sua crueldade – e, neste sentido, ninguém ganha mais oportunidades de se divertir com a podridão daquele mundo do que Julianne Moore, que protagoniza ao menos duas cenas que beiram o absurdo em seu descolamento da realidade: aquela na qual mantém uma conversa enquanto sentada no vaso sanitário e outra na qual celebra ter conseguido um papel.

E se o roteiro se diverte com pequenas piadas envolvendo a história de Hollywood (como no momento em que Carrie Fisher diz que “toda filha deveria ter a chance de interpretar a própria mãe”), o próprio Cronenberg acrescenta a estas suas próprias brincadeiras particulares, como ao escalar Robert Pattinson como um motorista de limusine depois de ter construído todo um filme no qual o ator era passageiro de uma (Cosmópolis, claro). Menos bem-sucedidas são as pinceladas de sobrenatural jogadas ao longo da narrativa, já que aqueles personagens são suficientemente estranhos para descartarem qualquer influência metafísica – e se a abordagem visual de Cronenberg se limita ao uso de grandes angulares para ressaltar a estranheza de suas criações, ao menos os figurinos de sua irmã Denise se mostram mais imaginativos (das roupas absurdas usadas por Havana ao vestido preto e roxo, simbolicamente perfeito, que cobre Agatha em vários momentos).

Divertido e chocante na medida apropriada, Mapa para as Estrelas é um retrato de um mundo que, mesmo produzindo beleza, parece apodrecido por dentro por se ver obrigado a criá-la a partir do confronto de egos – e é sintomático que, entre todos os personagens aos quais nos apresenta, a mais humana e sensível seja aquela que passou a vida internada por ser uma esquizofrênica piromaníaca. (4 estrelas em 5)

Não há racismo em terra de brancos

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Discussões, Variados | 12 comentários

As mãos, todas brancas, empurram os microfones diante do rosto do homem negro, alto e coberto de suor. Durante os últimos 90 minutos, enquanto desempenhava seu trabalho de maneira eficiente em campo, salvando seu time em ao menos duas ocasiões de particular perigo oferecido pelo time adversário, ele fora atormentado por vaias contínuas partindo da torcida rival. Estava acostumado a vaias, que faziam parte do esporte – mas aquelas obviamente atravessavam a fronteira da provocação de partida, já que se mostravam contínuas e endereçadas não aos companheiros, mas a ele.

Frustrado, percebeu que era tratado como vilão de uma narrativa na qual deveria ser a vítima em um extremo e herói no outro – lá, por ter enfrentado o mais ultrapassado e odioso preconceito; aqui, por ter erguido a voz a protestado contra este.

Nascido e criado em um país populado por pessoas que se orgulham em dizer que ali não há racismo, ele crescera constatando a mentira desta afirmação. Nas periferias, os tons escuros de pele dominavam; nos bairros enriquecidos, a brancura dos habitantes era o padrão. Nas faculdades, a proporção entre brancos e negros era diametralmente oposta à da população do país, como se os portões da instituição funcionassem como um filtro de raça. Ao mesmo tempo, as tentativas governamentais feitas para corrigir as injustiças históricas eram recebidas com protestos pelo mesmo estrato da sociedade que já se via beneficiado por séculos de dominação – e a irracionalidade dos argumentos ia do inacreditável “Nunca tive escravos; por que devo pagar pelos erros de pessoas que viveram há 200 anos?!” ao desonesto “As cotas raciais são uma forma inversa de preconceito”, que convenientemente ignorava a impossibilidade de massacrar, pela intolerância, qualquer um que tivesse que se preocupar com filtros solares com fator 50.

É fácil afirmar que não há preconceito quando não é você que é parado pela polícia apenas por andar na rua à noite, visto com desconfiança por um desconhecido que atravessa a rua para evitá-lo sem razão aparente ou atacado por gritos que o comparam a um primata irracional.

Finalmente farto e coberto de cicatrizes provocadas por anos e anos de punhaladas verbais, ele havia erguido a própria voz e protestado. Não era sua intenção personificar a acusação, já que o racismo, ele bem sabia, era um fenômeno coletivo, mas a imprensa, com sua necessidade contínua de criar narrativas dramáticas a partir de qualquer situação, havia elevado uma garota flagrada pelas câmeras à posição de antagonista do herói. Isto, ele reconhecia, era prejudicial por sugerir que o preconceito era algo limitado a alguns indivíduos, o que permitia que a sociedade, como um todo, evitasse se olhar no espelho e pudesse negar um problema antigo e tristemente disseminado por todas as camadas econômicas e culturais. Para piorar, a irracionalidade da garota fora confrontada com a irracionalidade daqueles que encaram o justiçamento como corretivo, em vez de como o crime que representa por si só – e as ofensas atiradas na direção da moça (“vadia!”, “puta!”) não só encerravam seus próprios e terríveis preconceitos como ainda se tornavam ainda mais graves em função de ações extremas como apedrejamentos e tentativas de incendiar o lar de seus pais.

Como se não bastasse, as ações destes criminosos travestidos de justiceiros respingaram sobre a vítima inicial, que passou a ser culpada por – vejam só – denunciar os ataques que sofrera.

Negando-se a espetacularizar ainda mais um incidente que nada tinha de espetáculo – mas tudo de trágico e doloroso -, ele se recusou a protagonizar cenas novelescas de redenção ao lado da garota que o ofendera em meio a uma multidão de racistas que permaneciam impunes e, com isso, passou a ser acusado de estrelismo e intolerância (uma tática repulsiva de equiparar o que não se equipara).

E agora, ao retornar ao palco dos ataques que haviam originado toda a polêmica, era atacado pela mesma torcida da qual as ofensas racistas partiram inicialmente – desta vez, com vaias contínuas, como se ele, por se recusar a aceitar mais uma ofensa em meio a todas que o acompanharam ao longo da vida, houvesse criado um inconveniente terrível ao estragar a festa dos que negam viver num país racista.

Olhou para os repórteres brancos à sua frente, que representavam uma mídia branca em uma sociedade cuja economia era dominada por brancos e ouviu mais uma vez uma pergunta em tom acusatório: “As vaias não são normais?”.

Por alguns segundos, ainda acreditando ser possível trazer bom senso a um debate que se fazia cada vez mais urgente, tentou apontar que aquelas vaias, em sua intensidade e direcionamento, não eram as mesmas que costumeiramente acompanham uma partida de futebol. Sem sucesso. Cansado, indagou à repórter branca que insistia na pergunta se esta concordava com o que havia ocorrido na partida anterior.

“Eu não tenho que concordar”, foi a resposta evasiva e absurda que substituiu a que seria a única aceitável: “Não, claro que não concordo. Que ser humano decente concordaria?”.

Consciente de estar discutindo com alguém cujo único propósito era arrancar uma resposta polêmica que rendesse manchetes e pageviews aos seus patrões brancos, o sujeito se afastou, enojado.

E, no dia seguinte, se descobriu como o vilão da história na qual nascera vítima.

Nada de novo em sua vida.

Decifrando o Padrinho – 2a. Edição – Belo Horizonte

postado em by Pablo Villaça em Curso | Comente  

Na semana em que completei 40 anos, experimentei a curiosa e inédita (e, espero, única) sensação de dar aula logo após sofrer um acidente de carro – e justamente no dia de meu aniversário. Só isso já seria o bastante para tornar esta segunda edição do Decifrando o Padrinho memorável, mas o carinho dos alunos, que levaram presentes e palavras de afeto, acabou me marcando muito mais do que a batida. Embora ainda aprendendo a dar este novo curso, experimentei a mesma sensação de empolgação da semana anterior, quando o estreei em São Paulo, ao perceber o brilho nos olhos da turma a cada plano do filme analisado.

Se eu temia enjoar do filme após este curso, o oposto vem ocorrendo: nas duas últimas semanas, vi meu amor por O Poderoso Chefão aumentar exponencialmente. Se seguir neste ritmo, acabarei me casando com a trilogia e mudando meu sobrenome para Corleone.

Lamento apenas que, ao contrário do que ocorreu em São Paulo, o auditório não tenha agradado tanto, o que diminuiu a nota da edição. Vou ter que mandar Luca Brasi conversar com os responsáveis pelo espaço.

Como de hábito, entreguei um formulário ao final do curso para que os alunos comentassem e atribuíssem “pontos” à experiência, que incluía os seguintes itens, que são graduados com notas que vão de 1 a 5: Infra-estrutura (instalações, recursos audiovisuais, atendimento); Conteúdo; Didática (clareza de exposição, domínio dos conteúdos); Estrutura do Curso (ordem dos conteúdos, divisão do tempo disponível). As notas das edições anteriores foram: 4,81 (Primeira).

As médias das notas foram:
Infra-estrutura: 3,49
Conteúdo: 4,92
Didática: 4,95
Estrutura do curso: 4,57

Média geral: 4,48.

Sem considerar o auditório, levando em conta apenas o curso em si, a média seria 4,81.

Para concluir, a foto tradicional de formatura:

001

40

postado em by Pablo Villaça em Variados | 5 comentários

Tenho hoje a idade que meu pai tinha quando morreu.

Passei a vida inteira pensando neste dia. Temendo-o. Temendo-me. Concebia esta virada de década como algo muito maior do que mais um aniversário; seria um marco simbólico. Eu enxergaria o mundo a partir de um ponto de vista similar ao do homem cujo rosto conviveu fragmentado em minhas memórias com incidentes cuja veracidade não posso garantir. Caímos mesmo de bicicleta quando Lassie, nossa dobermann, partiu em disparada ao avistar um gato, puxando a coleira que se encontrava amarrada no guidom? Quando me lembro da sensação de ser jogado para cima por braços fortes, estes pertenciam ao meu pai (como gosto de acreditar) ou a algum tio? A imagem que tenho de brincar de autorama com papai é uma lembrança ou uma mera projeção a partir de uma das poucas fotografias nas quais aparecemos juntos?

Sei apenas que ele partiu jovem demais. Olho para Luca e Nina, com seus 11 e 6 anos de idade, e imagino como papai enxergava seus filhos: eu tinha 5 anos e minha irmã, apenas um. Se meus pequenos são minha principal razão para levantar todos os dias, quando a velha depressão gostaria apenas que eu cedesse aos seus apelos sedutores, teríamos sido Jeanne e eu a razão de papai? Ou uma delas? Como ele se sentia ao se olhar no espelho? Sentia-se deprimido? Realizado? Será que sequer pensava nestas questões?

Quem era ele, afinal?

É uma pergunta ambiciosa e provavelmente sem resposta, já que eu não saberia responder esta pergunta nem com relação a mim mesmo. Sei que não sou o mesmo idiota que era há cinco anos e torço para não ser quem sou hoje daqui a outros cinco. Por outro lado, se ainda for, já será uma vitória.

“40 são os novos 20”, me disseram hoje.

Oh, eu espero que não. Ter 40 anos não me incomoda; há algo de reconfortante em envelhecer e em passar a enxergar o mundo com óculos que trazem o filtro da experiência. Ok, aquele vinco profundo no meio da testa não me faria falta, mas ando me acostumando com ele.

Menos fácil é me acostumar com a ideia de que certas experiências não serão repetidas.

Quando fui carregado por minha mãe pela última vez, não me dei conta de que não voltaria a ser suportado por seus braços. Quando vi meu pai antes de sua derradeira viagem, não sabia que jamais o veria novamente. Quando desliguei meu velho Atari em certa ocasião, não imaginei que aquela havia sido minha última partida.

Como certamente não me darei conta quando tiver acompanhado meu último por-do-sol. Assistido a O Poderoso Chefão pela última vez. Abraçado meus filhos. Gargalhado de um velho episódio de Friends. Beijado minha sobrinha. Escutado The Sound of Silence. Comido pizza. Sorrido. Chorado. Suspirado.

Meu pai não sabia, naquele junho de 1980, que havia se despedido de minha mãe e dos filhos para sempre ao partir em sua viagem final. Não sabia, quando fechou a porta do passageiro do carro, que jamais voltaria a abri-la.

Não sabemos de tantas coisas, mas supomos tanto. Estarei no festival ano que vem, claro. Sim, vamos reunir a velha turma algum dia. Semana que vem te ligo. Publicarei um texto sobre isso amanhã.

Que amanhã? Que semana ou ano que vem? Estas datas são meras hipóteses projetadas no calendário. Basta um coágulo ou um caminhão na contramão ou um tropeço ou um algo qualquer para que estas hipóteses jamais se concretizem.

Enquanto isso, sigo entristecido ao ver como papai se foi quando ainda tinha tanto para ver, sentir e ser. E tento me acostumar com o fato de que a idade que passei a vida inteira esperando pareceu chegar tão de repente.

Cargo

postado em by Pablo Villaça em Vídeos | 16 comentários

Quando você acha que já viu de tudo no subgênero “filme de zumbi”, vem um curta australiano com um conceito simples, tocante e eficaz.

Decifrando o Padrinho – 1a. Edição – São Paulo

postado em by Pablo Villaça em Curso | 1 comente

Uma semana. 15 horas. 55 pessoas discutindo e analisando cada plano de O Poderoso Chefão. Foi assim a estreia do novo curso em São Paulo.

Confesso que fiquei temeroso de que a ideia não funcionasse. Uma semana inteira dedicada a um único filme? Não poderia dar certo, poderia?

Aparentemente, deu. Tanto que esta primeira edição de Decifrando o Padrinho alcançou a maior nota entre todas as edições de todos os cursos que ministrei até hoje (um total de 57 edições em todas as regiões do país). Além disso, admito que a confiança dos alunos me tocou: afinal, lotaram a primeira turma sem que tivessem referência alguma de outras experiências similares a não ser aquelas dos “módulos” anteriores. Felizmente, tudo correu bem – e não poderia ser diferente, considerando que estávamos mergulhados naquela que considero a obra máxima do Cinema. E o mais bacana foi perceber, ao longo da semana, como o filme de Coppola ainda reserva surpresas mesmo depois de tantas horas que passei ao seu lado.

Como de hábito, entreguei um formulário ao final do curso para que os alunos comentassem e atribuíssem “pontos” à experiência, que incluía os seguintes itens, que são graduados com notas que vão de 1 a 5: Infra-estrutura (instalações, recursos audiovisuais, atendimento); Conteúdo; Didática (clareza de exposição, domínio dos conteúdos); Estrutura do Curso (ordem dos conteúdos, divisão do tempo disponível).

As médias das notas foram:
Infra-estrutura: 4,55
Conteúdo: 4,98
Didática: 4,98
Estrutura do curso: 4,72

Média geral: 4,81.

Sem considerar o auditório, levando em conta apenas o curso em si, a média seria 4,89 (a maior entre todas as edições de todos os cursos que ministrei até hoje).

Para concluir, a foto tradicional de formatura:

decifrando01sp

Forma e Estilo – 16a. Edição – Porto Alegre

postado em by Pablo Villaça em Curso | Comente  

A semana que passei em Porto Alegre para a 16a. edição do Forma e Estilo foi uma das mais estressantes da minha vida: não só anunciamos o encerramento das atividades do Cinema em Cena no meio da minha passagem pela cidade como ainda havia a tensão dos preparativos finais do novo curso sobre O Poderoso Chefão. O estresse foi tamanho, vale dizer, que tive um novo derrame na retina do olho direito. E, no entanto, aqueles dias poderiam ter sido infinitamente piores.

Se não foram, devo isso aos alunos daquela turma.

Como cheguei a mencionar numa entrevista a O Tempo concedida naquela sexta-feira, a energia que os alunos me emprestaram foi fundamental para que eu “sobrevivesse” a dias tão tristes – o que só serviu para reforçar meu amor por estes cursos e pela oportunidade que me oferecem de encontrar tantas pessoas fabulosas.

Obrigado mesmo aos gaúchos: vocês não têm ideia da importância que tiveram.

Como de hábito, entreguei um formulário ao final do curso para que os alunos comentassem e atribuíssem “pontos” à experiência, que incluía os seguintes itens, que são graduados com notas que vão de 1 a 5: Infra-estrutura (instalações, recursos audiovisuais, atendimento); Conteúdo; Didática (clareza de exposição, domínio dos conteúdos); Estrutura do Curso (ordem dos conteúdos, divisão do tempo disponível). As notas das edições anteriores: 4,66 (Décima-quinta); 4,55 (Décima-quarta); 4,59 (Décima-terceira); 4,35 (Décima-segunda);  4,76 (Décima-primeira); 4,22 (Décima); 4,42 (Nona); 4,64 (Oitava);  4,66 (Sétima); 4,49 (Sexta); 4,53 (Quinta); 4,42 (Quarta); 4,41 (Terceira); 4,38 (Segunda); 4,54 (Primeira).

As médias das notas foram:
Infra-estrutura: 4,22
Conteúdo: 4,91
Didática: 4,91
Estrutura do curso: 4,51

Média geral: 4,64.

Sem considerar o auditório, levando em conta apenas o curso em si, a média seria 4,78 (uma das melhores até hoje).

Para concluir, a foto tradicional de formatura:

turmapoa082014
E mais o Leonel, que estava lanchando na hora da foto:005