Festival do Rio Dia #01

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Videocast | 2 comentários

Abraços ao leitor Ricardo, que, antes da sessão de Mapa para as Estrelas, gentilmente veio desejar boa sorte ao Cinema em Cena. (Ei, quer ajudar a manter o site vivo? Quer? Legal! Então clique aqui!)

Vamos aos filmes:

1) Maria e o Homem-Aranha (María y el Araña, Argentina, 2013). Dirigido por María Victoria Menis. Roteiro de María Victoria Menis e Alejandro Fernández Murriay. Com: Florencia Salas, Diego Vegezzi, Mirella Pascual, Luciano Suardi.

Logo no início de Maria e o Homem-Aranha, encontramos a personagem-título acompanhando brincadeiras e danças infantis de um grupo de amigos em um terreno baldio que sugere um ar quase bucólico em seus verdes e no lago que se encontra próximo – e, então, a diretora María Victoria Menis e o montador Alejandro Brodersohn cortam subitamente para os colossais arranha-céus que podem ser vistos no horizonte e percebemos que, em vez de um tom bucólico, aquela paisagem revela uma prisão social: estamos na periferia de Buenos Aires e aqueles adolescentes são vítimas das desigualdades econômicas de um país de terceiro mundo.

No entanto, a questão social representa apenas a superfície do roteiro co-escrito por Menis e Alejandro Fernández Murriay: Maria (Salas) não é só uma adolescente com profundas carências financeiras; é, antes de tudo, uma jovem com carência afetiva. Abandonada pela mãe e vivendo com a avó (Pascual) e Garrido (Suardi), o namorado desta, a garota é uma estudante boa o suficiente para merecer uma bolsa integral em um colégio da região, mas também triste a ponto de preocupar a professora que tanto a admira. Aos poucos, percebemos que esta retração deve-se não a uma timidez natural, mas a traumas constantes: Maria vem sofrendo abusos sexuais por parte de Garrido. É então que a menina conhece um rapaz (Vegezzi) que, vestindo-se de Homem-Aranha, faz malabarismos no metrô da cidade em busca de alguns trocados com os quais possa cuidar do pai doente.

Embora a personagem tenha 14 anos de idade, aliás, não é à toa que usei a palavra “menina” para descrevê-la no parágrafo anterior: ainda que já adolescente, Florencia Salas encarna Maria como uma criança cujo corpo se desenvolveu quase como se para contrariar sua dona. Introspectiva e emitindo meia dúzia de palavras ao longo de toda a projeção, Maria é uma garota cuja imensa tristeza se torna ainda mais tocante quando contraposta aos poucos momentos nos quais ela sorri – e seu sorriso é algo que precisa ser visto para ser apreciado, sendo um daqueles exemplares que levam a pessoa a fechar os olhos quase completamente e a mostrar todos os dentes, contagiando qualquer um que esteja nas proximidades. Por outro lado, o “Homem-Aranha” é um jovem de expressão sempre fechada, como se estivesse sempre ansioso para provocar uma briga na qual pudesse socar alguém que, naquele momento, representaria todas as suas frustrações diante do universo – e é quando conhece Maria que ele troca esta postura por um sorriso discreto, mas que, em sua natureza, parece surgir em seu rosto por vontade própria, como se o garoto fosse incapaz de impedi-lo.

Estas performances sutis e delicadas, vale apontar, são resultado também da sensibilidade da cineasta Maria Victoria Menis, que também é hábil ao retratar os abusos sofridos por Maria de maneira sutil, mas impactante: ao vermos a sombra de seu estuprador projetada sobre a menina, que se encolhe na cama à espera do ataque, enxergarmos mais do que um pervertido, mas um monstro – numa ideia que é ressaltada pelo plano excepcional no qual este, usando óculos de festa que trazem pequenas lanternas nas laterais, surge quase como um alienígena hostil em busca de sua presa. Assim, quando contrapomos esta figura grotesca ao cantinho humilde que a menina chama de quarto, com seus desenhos infantis espalhados nas paredes sobre a cama, a natureza vil daquele crime se apresenta ainda mais chocante embora nada gráfico seja mostrado pela diretora.

Da mesma maneira, o romance entre o casal principal é enfocado com delicadeza por Menis, que é inteligente também ao trazer os jovens numa cena delicada no metrô no qual praticamente trabalham enquanto, ao fundo, ouvimos uma trilha romântica que eventualmente se revela diegética, já que está saindo da pequena viola de um companheiro pedinte que toca por moedas.

De modo geral, porém, este é um instante raro de leveza em uma narrativa que na maior parte do tempo surge como um verdadeiro pesadelo e cujos habitantes, por mais frágeis que sejam, podem esperar da vida – no máximo – um mínimo de amor. 4 estrelas em 5

 

2) Sétimo (Séptimo, Argentina, 2013). Dirigido por Patxi Amezcua. Roteiro de Patxi Amezcua e Alejo Flah. Com: Ricardo Darín, Belén Rueda, Osvaldo Santoro, Luis Ziembrowski, Guillermo Arengo, Abel Dolz Doval, Charo Dolz Doval, Jorge D’Elía.

Sétimo é um thriller dinâmico que, mesmo ambientado na maior parte do tempo em um único ambiente (um prédio), é suficientemente ágil para levar o espectador a se envolver na lógica de seus momentos individuais sem ter tempo para refletir exatamente sobre o que está vendo – e é apenas quando a projeção chega ao fim que qualquer breve discussão sobre o filme acaba revelando uma série de furos que tornam a obra frágil em retrospecto, impedindo que se solidifique como uma experiência memorável na mente do público.

Escrito pelo diretor Patxi Amezcua ao lado de Alejo Flah, o roteiro acompanha o bem-sucedido advogado Sebastián (Darín), que se encontra prestes a encerrar um dos maiores casos de sua vida e que traz implicações políticas graves. Enquanto se prepara para ir ao tribunal, ele busca os dois filhos na casa da ex-esposa Delia (Rueda) a fim de levá-los para a escola e, numa brincadeira, permite que as crianças desçam pelas escadas enquanto ele usa o elevador. Ao chegar ao térreo, porém, ele descobre que os filhos desapareceram e, então, inicia uma busca desesperada que envolve diversas possibilidades: teria sido o sequestro uma estratégia dos inimigos de seu cliente? Ou o responsável seria aquele homem estranho do quarto andar? Ou o vizinho, inspetor de polícia, com o qual teve uma discussão durante a reunião de condomínio?

Claro que, pelo número limitado de personagens, não se espera que Sétimo traga uma revelação das mais surpreendentes, mas, na medida do possível, o roteiro provoca boas reviravoltas especialmente ao lidar com as expectativas do público: quando Sebastián vai perceber que aquilo pode ter a ver com seu caso? Será que ele não vai investigar o “Urso” que dividiu com ele o elevador? Ao plantar pistas (falsas e autênticas) e esperar que o espectador perceba-as antes do protagonista, o filme cria um suspense eficaz através de nossa frustração diante das ações pouco focadas do herói.

Não que Sebastián seja estúpido – e Ricardo Darín, um dos mais competentes atores da atualidade, se esforça para retratar a maneira furiosa com que o sujeito tenta desvendar o que aconteceu. Sugerindo uma tensão crescente através da respiração pesada do personagem, Darín encarna Sebastián como um homem ambicioso, mas cujo amor pelos filhos suplanta quaisquer aspirações profissionais, já que não hesita em deixar a audiência de lado quando as crianças somem. Pai carinhoso e claramente ressentido diante do recente divórcio (mesmo que reconheça sua culpa no processo), o advogado é um herói eficaz não só graças à humanidade que Darín confere a ele, mas também à sua complexidade: percebemos que é um homem falho e corrompido, mas jamais questionamos seu amor pela família e os sacrifícios que faz para salvá-la.

Empregando planos frequentemente fechados para sugerir ainda mais uma atmosfera claustrofóbica, o diretor Patxi Amezcua exagera pontualmente no número de travellings em torno do protagonista, que, longe de criarem uma rima visual ou salientarem a já presente claustrofobia, soam apenas como evidência de sua falta de imaginação. Por outro lado, é interessante perceber como o filme aqui e ali parece oferecer pequenos instantes de alívio (como no instante em que Sebastián julga ouvir os filhos no elevador) que, ao serem descartados, ajudam a tornar a atmosfera ainda mais tensa.

Infelizmente, o roteiro, como já dito anteriormente, não sustenta um escrutínio maior – já começando de uma pergunta essencial: e se as crianças não tivessem descido pela escada? Além disso, para um projeto que se propõe a criar um mistério que essencialmente recria a velha proposta do “assassinato no quarto fechado”, a solução apresentada para o desaparecimento das crianças é decepcionante e prosaica demais, mesmo que a narrativa busque oferecer alguma satisfação emocional em seu desfecho (sem, com isso, lidar com todas as consequências que as ações tomadas pelo protagonista ao longo da projeção inevitavelmente trarão).

Ainda assim, Sétimo é eficaz enquanto dura. E traz Ricardo Darín carismático e eficiente como sempre. É o que basta, não? (3 estrelas em 5)

 

3) Quod erat demonstrandum (Idem, Romênia, 2013). Dirigido e roteirizado por Andrei Gruzsniczki. Com: Sorin Leoveanu, Ofelia Popii, Florin Piersic Jr., Dorian Boguta, Virgil Ogasanu, Marc Titieni.

Não é coincidência que Quod erat demonstrandum conte uma história ambientada em 1984. Situada durante o governo do ditador romeno Nicolae  Ceausescu, o filme traz ecos do livro de George Orwell na maneira com que os cidadãos vistos na narrativa são constantemente monitorados pelo Estado e mesmo influenciados para que ajudem a espionar amigos e vizinhos. No processo, o filme escrito e dirigido por Andrei Gruzsniczki se apresenta não só como um retrato de uma época triste da história de seu país, mas como uma reflexão sobre a própria natureza humana.

Acompanhando inicialmente o matemático Sorin Parvu (Leoveanu), que desenvolveu uma solução importante para o teorema de Fermat, o roteiro ilustra sua frustração por não conseguir ser publicado em nenhuma revista importante, já que não é filiado ao partido que rege o país, tornando-se um indivíduo naturalmente “suspeito” em função disso. Determinado a publicar seus achados em algum país estrangeiro, ele passa a ser monitorado pelo órgão de Inteligência do país e por um de seus principais agentes, Voican (Piersic) – que, ao seu próprio modo, encontra-se frustrado por não conseguir subir na carreira também graças a questões políticas. Para provar que Sorin é um traidor em potencial, Voican tenta manipular a amiga deste, Elena (Popii), que quer conseguir um passaporte a fim de se reunir ao marido, que se exilou na França ao participar de um congresso.

Elegante na construção de sua narrativa ao estabelecer paralelos frequentes entre os personagens que criam uma simetria que faz eco à própria formulação matemática de Sorin, Quod erat demonstrandum ainda é beneficiado pela ótima fotografia em preto-e-branco de Vivi Dragan Vasile, que não só ressalta a recriação de época como ainda mergulha a narrativa em um clima naturalmente opressivo e melancólico. Fugindo do estilo que se tornou habitual no Novo Cinema Romeno, o diretor Andrei Gruzsniczki, por sua vez, não adota os longos planos estáticos que caracterizam a produção recente do país, optando, em vez disso, por movimentos mais fluidos e cortes (relativamente) mais frequentes (o “relativamente”, claro, se deve ao fato de que, mesmo com mais cortes, o filme jamais se aproxima da média de duração dos planos da maior parte do Cinema ocidental). Por outro lado, a essência do Novo Cinema Romenos se mantém aqui, já que a obra constantemente usa ações prosaicas de seus personagens para ilustrar suas personalidades – seja um avô colocando pilhas no rádio, um garoto que coleciona pedras ou uma mulher que usa produtos racionados para presentear os amigos.

Aliás, a recriação de época feita pelo designer de produção Christian Niculescu é fantástica ao trazer os ambientes diminutos habitados por aqueles indivíduos e ao ressaltar a realidade opressiva que habitam através de seus lares entristecidos e com poucos elementos decorativos. Da mesma maneira, ver Sorin empurrando o carro em uma longa fila para abastecê-lo revela muito mais sobre as falhas de um governo supostamente preocupado com o coletivo do que poderíamos apreender através de longos diálogos expositivos.

Vale apontar, neste sentido, que uma das principais virtudes de Quod erat demonstrandum reside em sua habilidade ao expressar visualmente ideias complexas – e quando vemos Sorin encarregado de tirar uma foto de um grupo de pessoas que celebram um batizado, percebemos como o pobre sujeito vive uma existência de exclusão em função até mesmo de sua própria introspecção, já que quem tira o retrato é, por definição, excluído da lembrança que este passa a representar. Além disso, é interessante observar como Voican frequentemente pede que seus contrariados informantes assinem um pequeno documento (“É só uma formalidade”) que, de maneira sutil, oficializa suas traições, tornando-os colaboradores antes mesmo que se deem conta disso.

Em última análise, porém, a força deste desgastante filme é mesmo sua capacidade de escancarar a maior das contradições de um regime totalitarista como o de Ceausescu: aquela que, supostamente em nome de um governo que procura valorizar o coletivo, acaba por inspirar um profundo individualismo em cada um de seus sufocados cidadãos. (4 estrelas em 5)

 

4) Mapa para as Estrelas (Maps to the Stars, Canadá/EUA, 2014). Dirigido por David Cronenberg. Com: Bruce Wagner. Com: Julianne Moore, Mia Wasikowska, John Cusack, Olivia Williams, Robert Pattinson, Sarah Gadon, Evan Bird, Carrie Fisher.

Em uma carreira repleta de personagens e momentos repugnantes, o cineasta canadense David Cronenberg talvez tenha concebido, neste Mapa para as Estrelas, uma galeria povoada por algumas de suas criações mais repulsivas. No entanto, em vez de um homem cujo DNA se mistura ao de uma mosca ou de um indivíduo cuja cabeça explode subitamente, o filme se concentra em figuras que, se julgarmos por todos os livros e relatos jornalísticos sobre a comunidade cinematográfica de Los Angeles, são essencialmente reais: os astros e estrelas de Hollywood.

Roteirizado por Bruce Wagner, que de certa forma construiu toda uma carreira (medíocre) a partir da desconstrução da “meca do Cinema”, o filme acompanha a atriz Havana Segrand (Moore), que, decadente, se encontra obcecada em protagonizar a refilmagem de um clássico estrelado por sua própria mãe na juventude (uma estrela (Gadon) que morreu precocemente e de forma trágica em um incêndio). Enquanto isso, o astro mirim Benjie Weiss (Bird), recém recuperado de dependência química embora tenha apenas 13 anos (“Funcionou com Drew Barrymore”, diz alguém em certo instante), prepara-se para protagonizar uma continuação de seu maior sucesso, sendo perturbado por visões do fantasma de uma garota que visitou quando esta encontrava-se ainda hospitalizada. Para complicar ainda mais a situação, a irmã mais velha do rapaz, Agatha (Wasikowska), voltou à cidade depois de passar anos internada por ter incendiado a casa em que moravam – e seu retorno é mal visto por seus próprios pais, Christina (Williams) e o dr. Stafford Weiss (Cusack), um guru de autoajuda prestes a lançar seu novo livro.

A partir desta galeria de personagens desajustados, Cronenberg cria uma colagem quase surreal que, em certos momentos, parece oscilar entre O Jogador e Cidade dos Sonhos, mas sem jamais atingir a grandeza temática destes. Não que esta seja a intenção do cineasta, que parece bem mais interessado em explorar um curioso humor negro a partir da incapacidade que seus personagens têm de se identificar com qualquer questão minimamente humana, já que surgem como seres despreparados para a vida e que parecem fisicamente impossibilitados de escutar um “Não!” sequer, já que o narcisismo que define suas personalidades já parece ter cruzado a fronteira da pura sociopatia.

Frequentando uma sociedade na qual a aparência define as relações pessoais e profissionais, os homens e mulheres vistos em Mapa para as Estrelas são constantemente pressionados pela própria finitude, já que, naquele mundo, uma atriz jovem como Emma Watson já é cogitada para papéis de “mãe” e cada recusa em um teste significa mais um dia no qual aspirantes a atores e roteiristas se veem obrigados a trabalhar como garçons, motoristas e assistentes pessoais. Não é à toa, portanto, que cada interação soa menos como uma oportunidade de estabelecer uma ligação emocional com alguém e mais como uma oportunidade profissional, já que mudanças de religião são vistas como meios de impulsionar a carreira e flertes são abandonados assim que se apresentam ineficazes como networking.

Construindo a narrativa a partir de pequenas informações pontuais que vão se juntando em um quebra-cabeças que, mesmo jamais formando um quadro completo e coeso, é curioso justamente por sua fragmentação, Mapa para as Estrelas constantemente se diverte com a falsidade de seus personagens e mesmo com sua crueldade – e, neste sentido, ninguém ganha mais oportunidades de se divertir com a podridão daquele mundo do que Julianne Moore, que protagoniza ao menos duas cenas que beiram o absurdo em seu descolamento da realidade: aquela na qual mantém uma conversa enquanto sentada no vaso sanitário e outra na qual celebra ter conseguido um papel.

E se o roteiro se diverte com pequenas piadas envolvendo a história de Hollywood (como no momento em que Carrie Fisher diz que “toda filha deveria ter a chance de interpretar a própria mãe”), o próprio Cronenberg acrescenta a estas suas próprias brincadeiras particulares, como ao escalar Robert Pattinson como um motorista de limusine depois de ter construído todo um filme no qual o ator era passageiro de uma (Cosmópolis, claro). Menos bem-sucedidas são as pinceladas de sobrenatural jogadas ao longo da narrativa, já que aqueles personagens são suficientemente estranhos para descartarem qualquer influência metafísica – e se a abordagem visual de Cronenberg se limita ao uso de grandes angulares para ressaltar a estranheza de suas criações, ao menos os figurinos de sua irmã Denise se mostram mais imaginativos (das roupas absurdas usadas por Havana ao vestido preto e roxo, simbolicamente perfeito, que cobre Agatha em vários momentos).

Divertido e chocante na medida apropriada, Mapa para as Estrelas é um retrato de um mundo que, mesmo produzindo beleza, parece apodrecido por dentro por se ver obrigado a criá-la a partir do confronto de egos – e é sintomático que, entre todos os personagens aos quais nos apresenta, a mais humana e sensível seja aquela que passou a vida internada por ser uma esquizofrênica piromaníaca. (4 estrelas em 5)

Não há racismo em terra de brancos

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Discussões, Variados | 12 comentários

As mãos, todas brancas, empurram os microfones diante do rosto do homem negro, alto e coberto de suor. Durante os últimos 90 minutos, enquanto desempenhava seu trabalho de maneira eficiente em campo, salvando seu time em ao menos duas ocasiões de particular perigo oferecido pelo time adversário, ele fora atormentado por vaias contínuas partindo da torcida rival. Estava acostumado a vaias, que faziam parte do esporte – mas aquelas obviamente atravessavam a fronteira da provocação de partida, já que se mostravam contínuas e endereçadas não aos companheiros, mas a ele.

Frustrado, percebeu que era tratado como vilão de uma narrativa na qual deveria ser a vítima em um extremo e herói no outro – lá, por ter enfrentado o mais ultrapassado e odioso preconceito; aqui, por ter erguido a voz a protestado contra este.

Nascido e criado em um país populado por pessoas que se orgulham em dizer que ali não há racismo, ele crescera constatando a mentira desta afirmação. Nas periferias, os tons escuros de pele dominavam; nos bairros enriquecidos, a brancura dos habitantes era o padrão. Nas faculdades, a proporção entre brancos e negros era diametralmente oposta à da população do país, como se os portões da instituição funcionassem como um filtro de raça. Ao mesmo tempo, as tentativas governamentais feitas para corrigir as injustiças históricas eram recebidas com protestos pelo mesmo estrato da sociedade que já se via beneficiado por séculos de dominação – e a irracionalidade dos argumentos ia do inacreditável “Nunca tive escravos; por que devo pagar pelos erros de pessoas que viveram há 200 anos?!” ao desonesto “As cotas raciais são uma forma inversa de preconceito”, que convenientemente ignorava a impossibilidade de massacrar, pela intolerância, qualquer um que tivesse que se preocupar com filtros solares com fator 50.

É fácil afirmar que não há preconceito quando não é você que é parado pela polícia apenas por andar na rua à noite, visto com desconfiança por um desconhecido que atravessa a rua para evitá-lo sem razão aparente ou atacado por gritos que o comparam a um primata irracional.

Finalmente farto e coberto de cicatrizes provocadas por anos e anos de punhaladas verbais, ele havia erguido a própria voz e protestado. Não era sua intenção personificar a acusação, já que o racismo, ele bem sabia, era um fenômeno coletivo, mas a imprensa, com sua necessidade contínua de criar narrativas dramáticas a partir de qualquer situação, havia elevado uma garota flagrada pelas câmeras à posição de antagonista do herói. Isto, ele reconhecia, era prejudicial por sugerir que o preconceito era algo limitado a alguns indivíduos, o que permitia que a sociedade, como um todo, evitasse se olhar no espelho e pudesse negar um problema antigo e tristemente disseminado por todas as camadas econômicas e culturais. Para piorar, a irracionalidade da garota fora confrontada com a irracionalidade daqueles que encaram o justiçamento como corretivo, em vez de como o crime que representa por si só – e as ofensas atiradas na direção da moça (“vadia!”, “puta!”) não só encerravam seus próprios e terríveis preconceitos como ainda se tornavam ainda mais graves em função de ações extremas como apedrejamentos e tentativas de incendiar o lar de seus pais.

Como se não bastasse, as ações destes criminosos travestidos de justiceiros respingaram sobre a vítima inicial, que passou a ser culpada por – vejam só – denunciar os ataques que sofrera.

Negando-se a espetacularizar ainda mais um incidente que nada tinha de espetáculo – mas tudo de trágico e doloroso -, ele se recusou a protagonizar cenas novelescas de redenção ao lado da garota que o ofendera em meio a uma multidão de racistas que permaneciam impunes e, com isso, passou a ser acusado de estrelismo e intolerância (uma tática repulsiva de equiparar o que não se equipara).

E agora, ao retornar ao palco dos ataques que haviam originado toda a polêmica, era atacado pela mesma torcida da qual as ofensas racistas partiram inicialmente – desta vez, com vaias contínuas, como se ele, por se recusar a aceitar mais uma ofensa em meio a todas que o acompanharam ao longo da vida, houvesse criado um inconveniente terrível ao estragar a festa dos que negam viver num país racista.

Olhou para os repórteres brancos à sua frente, que representavam uma mídia branca em uma sociedade cuja economia era dominada por brancos e ouviu mais uma vez uma pergunta em tom acusatório: “As vaias não são normais?”.

Por alguns segundos, ainda acreditando ser possível trazer bom senso a um debate que se fazia cada vez mais urgente, tentou apontar que aquelas vaias, em sua intensidade e direcionamento, não eram as mesmas que costumeiramente acompanham uma partida de futebol. Sem sucesso. Cansado, indagou à repórter branca que insistia na pergunta se esta concordava com o que havia ocorrido na partida anterior.

“Eu não tenho que concordar”, foi a resposta evasiva e absurda que substituiu a que seria a única aceitável: “Não, claro que não concordo. Que ser humano decente concordaria?”.

Consciente de estar discutindo com alguém cujo único propósito era arrancar uma resposta polêmica que rendesse manchetes e pageviews aos seus patrões brancos, o sujeito se afastou, enojado.

E, no dia seguinte, se descobriu como o vilão da história na qual nascera vítima.

Nada de novo em sua vida.

Decifrando o Padrinho – 2a. Edição – Belo Horizonte

postado em by Pablo Villaça em Curso | Comente  

Na semana em que completei 40 anos, experimentei a curiosa e inédita (e, espero, única) sensação de dar aula logo após sofrer um acidente de carro – e justamente no dia de meu aniversário. Só isso já seria o bastante para tornar esta segunda edição do Decifrando o Padrinho memorável, mas o carinho dos alunos, que levaram presentes e palavras de afeto, acabou me marcando muito mais do que a batida. Embora ainda aprendendo a dar este novo curso, experimentei a mesma sensação de empolgação da semana anterior, quando o estreei em São Paulo, ao perceber o brilho nos olhos da turma a cada plano do filme analisado.

Se eu temia enjoar do filme após este curso, o oposto vem ocorrendo: nas duas últimas semanas, vi meu amor por O Poderoso Chefão aumentar exponencialmente. Se seguir neste ritmo, acabarei me casando com a trilogia e mudando meu sobrenome para Corleone.

Lamento apenas que, ao contrário do que ocorreu em São Paulo, o auditório não tenha agradado tanto, o que diminuiu a nota da edição. Vou ter que mandar Luca Brasi conversar com os responsáveis pelo espaço.

Como de hábito, entreguei um formulário ao final do curso para que os alunos comentassem e atribuíssem “pontos” à experiência, que incluía os seguintes itens, que são graduados com notas que vão de 1 a 5: Infra-estrutura (instalações, recursos audiovisuais, atendimento); Conteúdo; Didática (clareza de exposição, domínio dos conteúdos); Estrutura do Curso (ordem dos conteúdos, divisão do tempo disponível). As notas das edições anteriores foram: 4,81 (Primeira).

As médias das notas foram:
Infra-estrutura: 3,49
Conteúdo: 4,92
Didática: 4,95
Estrutura do curso: 4,57

Média geral: 4,48.

Sem considerar o auditório, levando em conta apenas o curso em si, a média seria 4,81.

Para concluir, a foto tradicional de formatura:

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40

postado em by Pablo Villaça em Variados | 5 comentários

Tenho hoje a idade que meu pai tinha quando morreu.

Passei a vida inteira pensando neste dia. Temendo-o. Temendo-me. Concebia esta virada de década como algo muito maior do que mais um aniversário; seria um marco simbólico. Eu enxergaria o mundo a partir de um ponto de vista similar ao do homem cujo rosto conviveu fragmentado em minhas memórias com incidentes cuja veracidade não posso garantir. Caímos mesmo de bicicleta quando Lassie, nossa dobermann, partiu em disparada ao avistar um gato, puxando a coleira que se encontrava amarrada no guidom? Quando me lembro da sensação de ser jogado para cima por braços fortes, estes pertenciam ao meu pai (como gosto de acreditar) ou a algum tio? A imagem que tenho de brincar de autorama com papai é uma lembrança ou uma mera projeção a partir de uma das poucas fotografias nas quais aparecemos juntos?

Sei apenas que ele partiu jovem demais. Olho para Luca e Nina, com seus 11 e 6 anos de idade, e imagino como papai enxergava seus filhos: eu tinha 5 anos e minha irmã, apenas um. Se meus pequenos são minha principal razão para levantar todos os dias, quando a velha depressão gostaria apenas que eu cedesse aos seus apelos sedutores, teríamos sido Jeanne e eu a razão de papai? Ou uma delas? Como ele se sentia ao se olhar no espelho? Sentia-se deprimido? Realizado? Será que sequer pensava nestas questões?

Quem era ele, afinal?

É uma pergunta ambiciosa e provavelmente sem resposta, já que eu não saberia responder esta pergunta nem com relação a mim mesmo. Sei que não sou o mesmo idiota que era há cinco anos e torço para não ser quem sou hoje daqui a outros cinco. Por outro lado, se ainda for, já será uma vitória.

“40 são os novos 20”, me disseram hoje.

Oh, eu espero que não. Ter 40 anos não me incomoda; há algo de reconfortante em envelhecer e em passar a enxergar o mundo com óculos que trazem o filtro da experiência. Ok, aquele vinco profundo no meio da testa não me faria falta, mas ando me acostumando com ele.

Menos fácil é me acostumar com a ideia de que certas experiências não serão repetidas.

Quando fui carregado por minha mãe pela última vez, não me dei conta de que não voltaria a ser suportado por seus braços. Quando vi meu pai antes de sua derradeira viagem, não sabia que jamais o veria novamente. Quando desliguei meu velho Atari em certa ocasião, não imaginei que aquela havia sido minha última partida.

Como certamente não me darei conta quando tiver acompanhado meu último por-do-sol. Assistido a O Poderoso Chefão pela última vez. Abraçado meus filhos. Gargalhado de um velho episódio de Friends. Beijado minha sobrinha. Escutado The Sound of Silence. Comido pizza. Sorrido. Chorado. Suspirado.

Meu pai não sabia, naquele junho de 1980, que havia se despedido de minha mãe e dos filhos para sempre ao partir em sua viagem final. Não sabia, quando fechou a porta do passageiro do carro, que jamais voltaria a abri-la.

Não sabemos de tantas coisas, mas supomos tanto. Estarei no festival ano que vem, claro. Sim, vamos reunir a velha turma algum dia. Semana que vem te ligo. Publicarei um texto sobre isso amanhã.

Que amanhã? Que semana ou ano que vem? Estas datas são meras hipóteses projetadas no calendário. Basta um coágulo ou um caminhão na contramão ou um tropeço ou um algo qualquer para que estas hipóteses jamais se concretizem.

Enquanto isso, sigo entristecido ao ver como papai se foi quando ainda tinha tanto para ver, sentir e ser. E tento me acostumar com o fato de que a idade que passei a vida inteira esperando pareceu chegar tão de repente.

Cargo

postado em by Pablo Villaça em Vídeos | 16 comentários

Quando você acha que já viu de tudo no subgênero “filme de zumbi”, vem um curta australiano com um conceito simples, tocante e eficaz.

Decifrando o Padrinho – 1a. Edição – São Paulo

postado em by Pablo Villaça em Curso | 1 comente

Uma semana. 15 horas. 55 pessoas discutindo e analisando cada plano de O Poderoso Chefão. Foi assim a estreia do novo curso em São Paulo.

Confesso que fiquei temeroso de que a ideia não funcionasse. Uma semana inteira dedicada a um único filme? Não poderia dar certo, poderia?

Aparentemente, deu. Tanto que esta primeira edição de Decifrando o Padrinho alcançou a maior nota entre todas as edições de todos os cursos que ministrei até hoje (um total de 57 edições em todas as regiões do país). Além disso, admito que a confiança dos alunos me tocou: afinal, lotaram a primeira turma sem que tivessem referência alguma de outras experiências similares a não ser aquelas dos “módulos” anteriores. Felizmente, tudo correu bem – e não poderia ser diferente, considerando que estávamos mergulhados naquela que considero a obra máxima do Cinema. E o mais bacana foi perceber, ao longo da semana, como o filme de Coppola ainda reserva surpresas mesmo depois de tantas horas que passei ao seu lado.

Como de hábito, entreguei um formulário ao final do curso para que os alunos comentassem e atribuíssem “pontos” à experiência, que incluía os seguintes itens, que são graduados com notas que vão de 1 a 5: Infra-estrutura (instalações, recursos audiovisuais, atendimento); Conteúdo; Didática (clareza de exposição, domínio dos conteúdos); Estrutura do Curso (ordem dos conteúdos, divisão do tempo disponível).

As médias das notas foram:
Infra-estrutura: 4,55
Conteúdo: 4,98
Didática: 4,98
Estrutura do curso: 4,72

Média geral: 4,81.

Sem considerar o auditório, levando em conta apenas o curso em si, a média seria 4,89 (a maior entre todas as edições de todos os cursos que ministrei até hoje).

Para concluir, a foto tradicional de formatura:

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Forma e Estilo – 16a. Edição – Porto Alegre

postado em by Pablo Villaça em Curso | Comente  

A semana que passei em Porto Alegre para a 16a. edição do Forma e Estilo foi uma das mais estressantes da minha vida: não só anunciamos o encerramento das atividades do Cinema em Cena no meio da minha passagem pela cidade como ainda havia a tensão dos preparativos finais do novo curso sobre O Poderoso Chefão. O estresse foi tamanho, vale dizer, que tive um novo derrame na retina do olho direito. E, no entanto, aqueles dias poderiam ter sido infinitamente piores.

Se não foram, devo isso aos alunos daquela turma.

Como cheguei a mencionar numa entrevista a O Tempo concedida naquela sexta-feira, a energia que os alunos me emprestaram foi fundamental para que eu “sobrevivesse” a dias tão tristes – o que só serviu para reforçar meu amor por estes cursos e pela oportunidade que me oferecem de encontrar tantas pessoas fabulosas.

Obrigado mesmo aos gaúchos: vocês não têm ideia da importância que tiveram.

Como de hábito, entreguei um formulário ao final do curso para que os alunos comentassem e atribuíssem “pontos” à experiência, que incluía os seguintes itens, que são graduados com notas que vão de 1 a 5: Infra-estrutura (instalações, recursos audiovisuais, atendimento); Conteúdo; Didática (clareza de exposição, domínio dos conteúdos); Estrutura do Curso (ordem dos conteúdos, divisão do tempo disponível). As notas das edições anteriores: 4,66 (Décima-quinta); 4,55 (Décima-quarta); 4,59 (Décima-terceira); 4,35 (Décima-segunda);  4,76 (Décima-primeira); 4,22 (Décima); 4,42 (Nona); 4,64 (Oitava);  4,66 (Sétima); 4,49 (Sexta); 4,53 (Quinta); 4,42 (Quarta); 4,41 (Terceira); 4,38 (Segunda); 4,54 (Primeira).

As médias das notas foram:
Infra-estrutura: 4,22
Conteúdo: 4,91
Didática: 4,91
Estrutura do curso: 4,51

Média geral: 4,64.

Sem considerar o auditório, levando em conta apenas o curso em si, a média seria 4,78 (uma das melhores até hoje).

Para concluir, a foto tradicional de formatura:

turmapoa082014
E mais o Leonel, que estava lanchando na hora da foto:005

A Democracia Particular de Aécio Neves (ou “Os 66”)

postado em by Pablo Villaça em Política | 64 comentários

Eu escrevo.

É o que sei fazer. É minha profissão, minha terapia, minha principal forma de expressão e também a maneira com que defendo meus ideais.

Há quem discurse. Há quem se candidate a cargos públicos. Há quem troque socos. Eu escrevo.

Não que escrever sobre política seja minha principal ocupação – ou mesmo secundária. Em número absoluto de palavras, o Cinema certamente domina meus textos – tanto na forma de críticas e posts, como também nos roteiros que escrevi e dirigi e no livro que publiquei. Em segundo lugar, vêm os contos. Só então, os textos nos quais busco discutir minhas posições políticas.

Tenho algumas regras, porém: não me importo com a vida pessoal de quem quer que seja. Não aceito dinheiro para defender uma causa (não que jamais tenham oferecido). Não separo sujeito de verbo (esta regra deveria ser seguida por mais pessoas, mas divago).

Assim, foi com surpresa que, neste domingo, me descobri numa lista de 66 tuiteiros que o candidato à Presidência da República, sr. Aécio Neves, quer ver calados. De acordo com o processo no. 1081839-36.2014.8.26.0100, Neves exige que o Twitter entregue a ele os dados pessoais e sigilosos de 66 pessoas que mantêm contas naquela rede social – e duvido que o objetivo final seja encaminhar flores ou chocolates para cada um. Em outras palavras: um senador da República, ex-governador de Minas Gerais e um dos três principais presidenciáveis do país (ok, ele é o terceiro) está buscando intimidar cidadãos que se atreveram a criticá-lo.

Caro senador, como diriam os Corleone, “não é pessoal; são apenas negócios”.

Nunca escrevi, por exemplo, sobre os insistentes boatos envolvendo o político e o consumo de drogas – boatos tão comuns que já inspiraram gritos de torcida em estádio e levaram até mesmo um aspirante a comediante notoriamente reacionário e que certamente enxerga a candidatura de Aécio com bons olhos a fazer piadas em seu stand up sobre a fama do senador. E sabem por que nunca escrevi? Porque nunca vi Aécio Neves consumir drogas e jamais li uma notícia que trouxesse evidências inquestionáveis sobre isso. Sim, ele já foi filmado embriagado, já foi parado por blitz e se recusou a fazer teste do bafômetro, tendo sua carteira apreendida, e também deu uma entrevista recente à TV Estadão no qual cambaleava, trazia um olhar perdido e falava com dicção incerta, mas, embora eu possa questionar o bom senso de um candidato a presidente que se deixa flagrar embriagado em ao menos duas ocasiões (a entrevista ao Estadão poderia ser fruto de, sei lá, um efeito de medicamento para alergia), jamais me ocorreria questionar sua corrida presidencial a partir disso. Álcool não é ilegal e cada um faz o que quiser em seu tempo livre.

Não. O que realmente me preocupa com relação a Aécio Neves – e que já me inspirou, aí, sim, a escrever sobre sua candidatura – é sua gestão em Minas Gerais, estado no qual nasci, cresci e ainda resido. Eu me preocupo, por exemplo, com o fato de MG ser, entre os 26 estados e o Distrito Federal, apenas o 24o. em termos de gastos com Educação num balanço publicado em 2011 (Aécio deixou o governo ao fim de 2010). Eu me preocupo que sejamos também o 24o. estado nos gastos com Saúde. Eu me preocupo com o fato de a dívida pública de MG ser a 2a. maior e uma das mais caras do país. Eu me preocupo com os 4,3 bilhões de reais desviados da Saúde em MG, seja Aécio Neves réu na ação ou não (era o governador, afinal). Eu me preocupo com o aeroporto em Cláudio e outras questões relacionadas a ele (inclusive a possibilidade de ser rota para o tráfico). Eu me preocupo com o fato de haver um jornalista preso em MG há meses, sendo que seus advogados enfrentaram dificuldades para ter acesso ao processo e que a justificativa da juíza para mantê-lo na cadeia tenha sido (pasmem) a possibilidade de que ele viesse a publicar mentiras em seu jornal (uma justificativa ao melhor estilo Minority Report). E, não menos importante, me preocupa muito os relatos constantes de tentativas frequentes de censura ou retaliação a jornalistas que ousam criticar o ex-governador (e, ao final deste post, incluirei um doc produzido por um canal estrangeiro sobre o assunto e que, numa comprovação de que desconhece o conceito de “ironia”, Aécio tentou censurar).

Não creio que, como cidadão, eu esteja abusando de meus direitos ao abordar estes assuntos. Não enxergo, sinceramente, qualquer justificativa para que o senador, ex-governador e agora presidenciável recorra à justiça para tentar me intimidar.

No processo, Aécio alega que os tuiteiros (detesto essa palavra, mas vá lá) são provavelmente “robôs” ou perfis “remunerados para veicular conteúdo ilícito”.

Não sou advogado, mas isto me parece calúnia. Depois de 20 anos de carreira e de ser publicado em português e inglês em veículos que vão do Cinema em Cena ao site de Roger Ebert (desde quando era hospedado pelo jornal Chicago Sun-Times), ser chamado de “robô” é algo inédito para mim – bom, isto se não contar a minha namorada de adolescência que me acusou de dançar como um andróide e me traumatizou para o resto da vida, me impedindo de voltar às pistas de dança e frustrando meu sonho de me profissionalizar usando o pseudônimo de “Tony Mineiro”.

Além disso, venho de uma família para a qual a política é assunto muito, muito sério. Como já escrevi em outras ocasiões, minha mãe e meus tios lutaram contra a Ditadura e tenho parentes que carregam até hoje as sequelas das torturas sofridas nos porões malditos do DOI-Codi. Milito politicamente desde os 18 anos – nunca profissionalmente, mas, sim, de forma contínua. Se não ocorre a Aécio que alguém possa defender ideais apenas por amor, sinto por ele, mas é o que faço. Como já escrevi antes, eu me preocupo com o Brasil no qual meus filhos irão crescer. Esta motivação é suficiente para me manter ativo.

Mas, como dito no início deste post, minha ferramenta é a escrita. Não tenho uma fortuna para investir em marketing pessoal ou para propagar minhas ideias. Não tenho poder político para influenciar legisladores ou quem quer que seja. Escrevo porque preciso, porque amo escrever e porque é minha maneira de tentar ser escutado e de compartilhar minhas preocupações. Depois de duas décadas escrevendo, tenho um número considerável de leitores e me orgulho não só disso, mas do carinho com que estes leitores me presenteiam continuamente.

Já Aécio tem, à sua disposição, armas como dinheiro e poder político. E é preocupante que, apenas por ser criticado (e é, afinal, uma pessoa pública que quer gerir o futuro do país), ele tente usar suas ferramentas para me impedir de usar a minha.

Robin Williams, um ator que nos fez rir e chorar

postado em by Pablo Villaça em Cinema | 26 comentários

A primeira vez em que ouvi falar do nome “Robin Williams” foi em 1986 ou 1987, lendo numa revista de cinema alguma nota sobre Bom Dia, Vietnã e o fato de que era considerado um dos favoritos ao Oscar. Como jovem cinéfilo, quis imediatamente ver o filme, mas não conhecia seu protagonista e, aos 12 anos, não sabia muito bem nem o que havia sido o tal Vietnã. Pouco depois, ao visitar o Video Clube do Brasil na época que marcou a chegada do videocassete ao Brasil, descobri em seu acervo uma cópia (pirata, como eram todas) de Popeye e a levei para casa. Era um VHS vagabundo, com péssima imagem, legendas trôpegas (e que nem traduziam as músicas), mas que me impressionou muito pelo universo que criava e pelo ator que havia conseguido transformar o personagem animado que eu crescera vendo em uma criatura de carne-e-osso. Ao ler seu nome nos créditos, percebi que era o tal ator do Bom Dia, Vietnã.

Alguns anos depois, seu Sociedade dos Poetas Mortos foi lançado no Brasil e permaneceu em cartaz em Belo Horizonte por quase dois anos – e lembro-me de ler matérias sobre ter sido o longa que mais tempo permaneceu em exibição na cidade, num tempo em que os cinemas de rua imperavam e uma produção tinha tempo para criar boca-a-boca e um público cativo. Emocionei-me com sua história simples, mas humana, e até hoje me arrepio ao lembrar da cena na qual os estudantes veem as fotos antigas de outros alunos, agora todos mortos, e aprendem o conceito do carpe diem.

Veio, então, Um Tempo de Despertar – e foi vendo aquele filme no cine Acaiaca que decidi cursar Medicina (e o fiz) e me tornei fã de Oliver Sacks, que Robin Williams encarnou de maneira impecável. Sim, o personagem de Robert De Niro é o grande chamariz deste lindo longa, mas a performance de Williams não só recria todos os maneirismos de Sacks como ainda cria um homem tímido, inseguro, com o qual passamos a nos importar. É uma interpretação sensível que só um ser humano com grande alma poderia oferecer (e digo isso como ateu).

Com o passar do tempo, redescobri ou fui presentado com obras como O Mundo Segundo GarpVoltar a Morrer e, claro, O Pescador de Ilusões. Ri com suas breves aparições em Nove Meses As Aventuras do Barão de Münchausen, sonhei em ouvir sua versão do Gênio de Aladdin em uma época na qual somente cópias dubladas das animações eram lançadas (e não havia o DVD para trazer trilhas alternativas) e jamais esqueci sua dor ao dizer, ao final de Uma Babá Quase Perfeita, como era “viciado” em seus filhos – um vício ao qual eu próprio sucumbiria tempos depois.

Foi mais ou menos neste período, aliás, que percebi que todos os trabalhos de Williams, mesmo os mais cômicos, traziam um subtexto de dor que ele projetava com os lábios finos encurvados, os olhos doloridos e as mãos estendidas à frente do corpo, como se tentasse se proteger do mundo. Notei, ali, o que tornava suas performances tão memoráveis: dramáticas ou cômicas, elas projetavam vulnerabilidade e uma certa impotência diante do mundo.

Quando descobri que Robin Williams enfrentava problemas com drogas, álcool e depressão, não me surpreendi.

Ao longo das décadas seguintes, Williams me fez rir e chorar. Provocou um incômodo profundo com suas performances assustadoras em Retratos de uma Obsessão Insônia. Estabeleceu uma química invejável com Nathan Lane na eficiente refilmagem de A Gaiola das Loucas. Demonstrou falta de ego absoluta ao surgir sempre desfocado em Desconstruindo Harry. Fez uma pequena, mas emblemática, participação no Hamlet de Kenneth Branagh (a melhor versão de todas) depois de dividir com ele a cena no subestimado Voltar a Morrer. Foi instrumental para o sucesso de Gênio Indomável. Revelou coragem ao atuar no complicado O Melhor Pai do Mundo. Enriqueceu a já linda Louie com sua belíssima participação em um episódio memorável.

E se matou em 11 de agosto de 2014 ao finalmente sucumbir à depressão que o perseguia há décadas.

Imagino Williams sozinho em sua casa, de madrugada, confrontando os velhos demônios. E decidindo que já não queria mais enfrentá-los.

Sempre que ouço a notícia de que alguém se matou, tenho a sensação de descobrir que mais um companheiro desabou no campo de batalha. Assim funciona a depressão, esta inimiga traiçoeira e persistente: você pode enfrentá-la por décadas; basta um momento de distração para que ela te destrua. Não há fama, fortuna ou realizações profissionais que a afastem – é preciso ter força constante para entender que o suicídio, como dizem, é uma solução permanente para problemas temporários.

Mais fácil dito que vivido, eu sei. Como sei.

O fato é que Robin Williams não existe mais. Levou consigo seu talento único para o improviso. Sua capacidade de saltar de um tema a outro com a velocidade de uma piscada. E o dom da empatia que o tornou tão eficiente ao viver todo tipo de personagem por entender seus dramas mais íntimos.

Morreu o “Capitão, oh, meu Capitão”. Morreu o homem que, mesmo enlouquecido pela morte da esposa em O Pescador de Ilusões, transformava o caos de uma estação de trem num balé harmonioso e adorável. O pai que se disfarçou para conviver com os filhos. O Gênio que se metamorfoseava com a mesma habilidade de seu dublador.

O artista que me fez rir e chorar tantas vezes.

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Abaixo, um exemplo de seu talento para a improvisação durante entrevista a James Lipton no Inside the Actor’s Studio (aos 4:55):

Legado

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Curso | 9 comentários

Este ano completarei 40 anos de idade. É bastante provável que esteja próximo da metade do meu tempo na Terra – para mais ou para menos. É inevitável, neste contexto, não começar a pensar na palavra “legado”, especialmente considerando que meu pai morreu exatamente aos 40 anos em um acidente de carro e, portanto, esta é uma data que já me aterroriza há um longo tempo. Há uma certa morbidez neste tipo de pensamento, reconheço, mas também um benefício lógico: a cada dia que passa, tento ser alguém melhor do que era no dia anterior. Nem sempre consigo: explodo em redes sociais, ofendo pessoas (não interessa se provocado ou não) e ajo impulsivamente quando já deveria ter idade suficiente para ter aprendido que tudo – tudo! – exige reflexão. Mas sigo tentando. Falhando muito, ainda, mas tentando.

Tenho aprendido que, se antes acreditava saber tudo, hoje sei pouco. Ou desaprendi ou nunca soube e só agora percebo isso. Vejo figuras que admiro e me percebo distante delas em conteúdo, maturidade e sensibilidade.

Mas – de novo – sigo tentando melhorar.

Ao refletir sobre este “legado”, há alguns dias, me ocorreu que, além de Luca e Nina, produzi alguns outros “filhotes” dos quais me orgulho imensamente – mesmo reconhecendo que minha participação naquilo que produzem é mínima: contribuí com algumas horas de experiências compartilhadas e só. O que veio a seguir é mérito total e absoluto deles. Ainda assim, por saber que desempenhei um diminuto papel no crescimento destas pessoas no que diz respeito ao amor que compartilhamos (o Cinema), já me sinto… feliz.

Estou falando, claro, sobre os alunos que acumulei ao longo destes cinco anos de viagens com os cursos pelo Brasil. Alunos que produzem seus próprios conteúdos em seus espaços pessoais e profissionais que compartilho com vocês abaixo, esperando que prestigiem a riqueza de ideias e discussões que certamente encontrarão nesta lista. Foram mais de 2 mil alunos de 2009 pra cá e, portanto, a relação a seguir é uma pequena parcela deste número, mas não menos representativa.

Mesmo sabendo que é presunção minha, considero cada um deles como parte do meu legado.

Adriano Cardoso: http://cinemacomadrianocardoso.blogspot.com.br

Adriano Garrett: www.cinefestivais.com.br

Aline Fernanda: www.cinemascope.com.br

Aline Guevara: www.experimento42.com.br

Aline Monteiro, Daniel Bessa, Fabrício Carlos, João Golin, Larissa Padron e Tullio Dias: www.cinemadebuteco.com.br

Amanda Aouad Almeida e Ari Cabral: www.cinepipocacult.com.br

Angelo Costa: www.falacinefilo.com.br

Attilio Gorini: http://www.planocritico.com/

Barbara Soares: Www.daiblog.com.br

Bruno Carvalho: www.ligadoemserie.com.br

Bruno Cesar e Daniel Pelegrini: http://olharleigo.com/

Caio Guilherme Muniz: www.porqueassistir.com

Caio Pimenta: http://blogs.d24am.com/cineset/

Carlos Carvalho: www.setimacena.com

Cristine Tellier: www.luzescameracafe.com.br

Dalton Marques: http://www.daltonmarques.blogspot.com.br/

Daniel Guilarducci e Maurício Costa: Razaodeaspecto.blogspot.com

Daniel Oliveira: www.cinefiloemserie.blogspot.com.br

Diego Domingos: http://www.cinemanews2.com.br

Fabrício Veloso: http://8super8.blogspot.com.br/

Felipe Fonseca: http://www.planosequencia.com.br/

Felipe Teixeira: www.blogserinema.blogspot.com

Flávio Junio: www.cineprise.com.br

Gabriel Escudero: http://escrevendosobrecinema.com.br

Gilberto Bruno: http://www.intoleravel.com.br/

Giordano Gio: www.filak.com.br

Guilherme Jorge Huyer: http://fakeline.wordpress.com/

Ivan Pereira: http://cinemavirgula.blogspot.com/

Ivanildo Pereira: http://www.artecompipoca.net/oblogquenaoestavala/

Jacker Marini: www.figurama.com.br

Jaime Junior: http://ocinefilo.net

Jason Almeida: www.cineprosa.com.br

José Guilherme: http://www.loggado.com/

Karina Cassare Martins: www.central42.com.br

Lucas Nascimento: http://lucasfilmes.wordpress.com/

Luiz Fernando Riesemberg: http://riesemberg.blogspot.com.br

Marcelo Seabra: pipoqueiro.wordpress.com

Marcio L. Santos: http://callmemisterglass.wordpress.com

Márcio M Andrade: www.zonacritica.com.br

Marcio Sallem: Http://blogsoestado.com/EmCartaz

Marden Machado: http://www.cinemarden.com.br

Mariana González: http://bitfairytale.wordpress.com

Maurício Costa: www.razaodeaspecto.blogspot.com

Mauricio Lammardo: http://cineclubedoscinco.com/

Michael Guima: http://universoe.wordpress.com

Pedro Ivo Maximino: http://mentesemfio.com/

Rafael Carvalho: http://movioladigital.blogspot.com.br e http://coisasdecinema.com.br/2013/críticas

Raphael Carrozzo: http://janelacinematografica.wordpress.com

Rebecca Albino: www.cineopinativo.com

Rick Monteiro: www.zonacritica.com.br

Roberto Siqueira: http://cinemaedebate.com

Rodrigo Baldin: www.central42.com.br

Rodrigo Cunha: www.cineplayers.com

Rodrigo Mutuca: http://rodrigomutuca.com/

Stéfanie Stefaisk Medeiros: Www.quemcontaumcontoblog.wordpress.com

Thomás R. Boeira: http://brazilianmovieguy.blogspot.com.br/

Tiago Paes de Lira: http://umtigrenocinema.com

Ulisses Da Motta Costa: http://www.jornalnh.com.br/…/entreteni…/setima_das_artes

Victor Rodrigues: http://sayhellotomylittleblog.wordpress.com/

Victor Ruiz: http://www.cinema7.com.br/

Vinicius Carlos Vieira: http://www.cinemaqui.com.br/

Vinícius Colares: http://diariodebordo.cinemaemcena.com.br/doutorcaligari

Wallace Andrioli: www.novascronicas.blogspot.com

Wanderlei Souza: http://diretodocinema.com.br/

Yuri Correa: http://classedecinema.blogspot.com.br/ e http://www.papodecinema.com.br/